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Microcontos
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Já Drummond antecipava que “escrever é cortar palavras”.
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José, Pedro e Maria formavam um casal. Como assim? Simples. Para eles era muito bom e natural.
Supremo requinte da crueldade, ela lambia os dedos depois de comer chocolate, saboreando o súbito silêncio dos colegas no escritório.
Foi a Paris e subiu na Torre Eiffel para realizar uma velha fantasia, jogar dali um aviãozinho de papel.
No cadafalso, prestes a ser enforcado, dedicou os últimos instantes de vida a procurar na multidão aquela que seria homenageada com sua última ereção.
Perdeu o bigode numa aposta. Mais tarde foram-se o carro, a casa, a mulher e os filhos. Hoje é eunuco e parou de arriscar no jogo.
Caprichando com os lábios e a língua, Pedrão aprofundava o beijo na tímida garota, que se contorcia e gemia sem coragem de dizer que estava com aftas.
Quando era jovem queimava fumo escondido dos pais. Hoje fuma escondido dos filhos.
O casal encontrou-se no barzinho. Sentaram-se à mesa e cada um atendeu seu celular. Quando ambos desligaram, voltaram a ficar em silêncio.
O velho dinossauro trabalhava como fóssil no museu. Achava muito enfadonho não poder se mexer, mas eram os ossos do ofício!
O homem-avestruz era muito recursivo. Ele mesmo criava em sua cabeça os buracos onde a enfiava.
Ele era de esquerda. Era. Agora está no poder. Está.
Tóbi era um cachorro muito inteligente. Quando o dono o chamava dizendo "você vem ou não vem?", ele ia ou não ia...
O diretor do manicômio proibiu os pacientes de verem os noticiários da televisão, pois eles já estavam começando a acreditar no que era transmitido.
João das Regras era muito meticuloso. Quando pegou sua mulher com outro, estipulou que ela jamais o faria a não ser às quartas-feiras.
Seu pai fora bicheiro e jamais jogara. Ele era traficante e nunca cheirou. Como foi que justo sua mulher, aquela puta, tinha gozado com o cliente?
Quando a carpideira ficou viúva não verteu nenhuma lágrima no velório. Afinal, família é família, negócios à parte.
Ele era inocente, mas só quando subornou o juiz é que foi absolvido no processo por corrupção.
Os decapitados andavam sobre as mãos ou arrastavam-se de joelhos. Era um pesadelo sem pés nem cabeça.
Cada bugiganga a mais que ela comprava, era um orgasmo a menos que deixava de lamentar.
O chapeleiro maluco dava pulos de alegria quando chegava seu melhor cliente, um verdadeiro bicho de sete cabeças.
Atrás das grades, com o olhar posto ao longe no horizonte, após tantos anos ele já achava que o mundo é que estava preso.
Os sentimentos antigos mexem-se mais devagar e por isso demoram mais para sair do lugar.
Depois de acariciar demoradamente a lamparina mágica, a sensual fada satisfez seus desejos três vezes.
Ela tinha ciúmes de como ele abraçava o violoncelo. Ainda, pelo menos, se fosse outra mulher...
No clube de casais, o swing rolava solto. A troca nem sempre ocorria, mas a devolução era garantida.
Carlos Seabra
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José, Pedro e Maria formavam um casal. Como assim? Simples. Para eles era muito bom e natural.
Supremo requinte da crueldade, ela lambia os dedos depois de comer chocolate, saboreando o súbito silêncio dos colegas no escritório.
Foi a Paris e subiu na Torre Eiffel para realizar uma velha fantasia, jogar dali um aviãozinho de papel.
No cadafalso, prestes a ser enforcado, dedicou os últimos instantes de vida a procurar na multidão aquela que seria homenageada com sua última ereção.
Perdeu o bigode numa aposta. Mais tarde foram-se o carro, a casa, a mulher e os filhos. Hoje é eunuco e parou de arriscar no jogo.
Caprichando com os lábios e a língua, Pedrão aprofundava o beijo na tímida garota, que se contorcia e gemia sem coragem de dizer que estava com aftas.
Quando era jovem queimava fumo escondido dos pais. Hoje fuma escondido dos filhos.
O casal encontrou-se no barzinho. Sentaram-se à mesa e cada um atendeu seu celular. Quando ambos desligaram, voltaram a ficar em silêncio.
O velho dinossauro trabalhava como fóssil no museu. Achava muito enfadonho não poder se mexer, mas eram os ossos do ofício!
O homem-avestruz era muito recursivo. Ele mesmo criava em sua cabeça os buracos onde a enfiava.
Ele era de esquerda. Era. Agora está no poder. Está.
Tóbi era um cachorro muito inteligente. Quando o dono o chamava dizendo "você vem ou não vem?", ele ia ou não ia...
O diretor do manicômio proibiu os pacientes de verem os noticiários da televisão, pois eles já estavam começando a acreditar no que era transmitido.
João das Regras era muito meticuloso. Quando pegou sua mulher com outro, estipulou que ela jamais o faria a não ser às quartas-feiras.
Seu pai fora bicheiro e jamais jogara. Ele era traficante e nunca cheirou. Como foi que justo sua mulher, aquela puta, tinha gozado com o cliente?
Quando a carpideira ficou viúva não verteu nenhuma lágrima no velório. Afinal, família é família, negócios à parte.
Ele era inocente, mas só quando subornou o juiz é que foi absolvido no processo por corrupção.
Os decapitados andavam sobre as mãos ou arrastavam-se de joelhos. Era um pesadelo sem pés nem cabeça.
Cada bugiganga a mais que ela comprava, era um orgasmo a menos que deixava de lamentar.
O chapeleiro maluco dava pulos de alegria quando chegava seu melhor cliente, um verdadeiro bicho de sete cabeças.
Atrás das grades, com o olhar posto ao longe no horizonte, após tantos anos ele já achava que o mundo é que estava preso.
Os sentimentos antigos mexem-se mais devagar e por isso demoram mais para sair do lugar.
Depois de acariciar demoradamente a lamparina mágica, a sensual fada satisfez seus desejos três vezes.
Ela tinha ciúmes de como ele abraçava o violoncelo. Ainda, pelo menos, se fosse outra mulher...
No clube de casais, o swing rolava solto. A troca nem sempre ocorria, mas a devolução era garantida.
Carlos Seabra
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07 Novembro 2006
8 comentários:
Micro, mas muito macro. Todo um mundo em cada um. Dezenas de universos.
Fantástico...
;)
concordo, st. j.
há mais em http://cseabra.utopia.com.br/microcontos/
Seus microcontos são de uma leveza sem precedentes. Obrigado por linkar meu blog. E tb pela sua gentileza. Sou apenas um escritor amazônida. Pelo que percebi, resides em Portugal. Devo partir para a Europa no ano que vem. Quem sabe nos encontramos. Abs.
olá, reni,
obrigada pela visita.
os microcontos não são meus mas sim dum teu conterrâneo, carlos seabra, tal como está no post. e são bons, sim.
sim, não só resido em portugal, como sou portuguesa.
bjs
escrita irrepreensível, a de C.Seabra.....
em cada "micro" um universo real, imenso.
lá dizia drummond...
Pelo menos tens o mérito de descobrir estas pérolas e de divulgá-las.
São excelentes bocados de prosa.
sim, david, pelo menos isso...
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