Tactear o transitório. Ser fulguração. Sentir o esgar da revolta, da ironia, do espanto...

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"já, agora? tem de ser já, agora!" / "let's celebrate?"
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tenho duas datas para celebrar e não me apetece nada.
da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia e única de medo. chama-se eu mas diz-se nós, quando prende a vida a algo tão falível como a vida. não se vê mais nada. ouve-se um silêncio contra mim.
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o amor aconteceu um dia. sabes, não sabes? naquele dia, quando os corpos se prenderam nos mares dos suores, quando a tua mão me percorreu sem atrito, quando separaste, de repente, a tua cara da minha, e com o medo da surpresa disseste "amo-te". e ficaste sem te mover todo o tempo que eu te pedi. quando, quando... hoje ainda sabes, não sabes?
noutro dia desapareceste na tua forma de seres tu. sem saberes, mudaste de forma. não te quero mais seres em mim, disse eu. mas sabes que tudo o que eu dizia eram apenas palavras que voltavam para mim, não sabes? sabes que eu quero que sejas para sempre em mim, mais o segredo-que-vai-comigo-para-a-cova. sabes que adormeço a imaginar que amanhã, quem sabe, virás buscar-me e libertar-me do ódio e da paixão. sabes que estou a exagerar. sabes que quero almoçar contigo e falar do estado do tempo e dos nossos problemas de trabalho e saúde e daqueles sítios e coisas a que não fomos juntos. e saber que estaremos no olhar de cada um. e deslumbrar-me ao ver-te descair com coisas tipo "o teu fato clássico, lindo por sinal" (e outras...), para logo a seguir te recuperares, numa atrapalhação disfarçada de algo sumamente divertido, com "o raio das tuas olheiras". sabes que não era preciso dizer nada disto para saberes, não sabes?
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duas datas. princípio dum verão e fim doutro verão. não me apetece celebrar seja qual delas for e de que maneira for.
estou exausta de mim e de vocês. do calor do verão. quero sentir frio. quero ir à procura de calor só quando quiser. quero sair de nós todos.
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e tu ris. é triste o teu riso. está sempre como coro de fundo na tua voz de menino doce e depois rompre à desfilada sem que se espere. ninguém espera pela tua tristeza. ninguém lhe chama tristeza.
o sabor e saber das tuas palavras foram uma enxurrada no deserto da minha vida. sabes que foste o meu criador. sabes que uma parte de mim será sempre tua. deste-me as asas e uma visão extra que me levam à tua selva escorregadia. que me levam ao teu sotão dos monólogos, ao teu cabo das tormentas, ao calculismo no teu estar em muitas coisas. que me levam àquela tragédia que partilhamos, e descobriste, de querermos desesperadamente ser felizes sem termos um pingo de fé em que isso aconteça. que me levam aos teus ataques de pânico e aos lugares onde nunca estivémos. que me levam a ver-te prender o cabelo atrás da orelha. que me levam a ver-te beijar outras bocas e a rir para quem não sabe o que esconde o teu riso e se serve dele para iniciar desejos. e do teu pescoço. que me levam a todas as coisas que tu sabes que eu sei que és e tens e que são coisas de muitas palavras. que me fazem saber que o teu é um labirinto que segue percursos inventados, aparentemente, à toa. o que, já por si, daria para um tratado. que me fazem saber que eu
sei. eu.
quero perder-te para sempre. para sempre, sabes? e nunca te encontro quando te quero perder. também sabes, não sabes?
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fecho os olhos e revisito-me. penso no que se passou e no que não se passou. de como são o mesmo.
eu não mereço não celebrar. para aquele que abracei e para aquele que nunca abracei todo o meu estender de braços será pequeno.
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12 Setembro 2006

11 comentários:

Sérgio Mak said...

Ia começar um comentário de índole humorística, depois vi que num texto assim cuidado seria mal esboçado, pelo que decidi apagá-lo.
Mas, porque não sou de arrenpendimentos, mudei de ideias, o q é pouco coerente, mas é irónico, o que já é mais coerente comigo :)

josé alberto lopes said...

visual e esteticamente o teu blog é dos melhores que já tive o prazer de visitar.
este teu post reflecte imensa amargura, mas uma amargura consentida e consciente, uma espécie de introspecção sobre o que nos faz doer ainda e o que já sarou definitivamente.
p.s. - aquela frase do leonard cohen, algures no teu blog, é simplesmente divinal. "se a tua vida arde bem, a poesia é apenas a cinza". brilhante!

Letras de Babel said...

hi, mak

não está mal. já vi maneiras piores de fazer auto propaganda :)

ps: desculpa ter-te chamado mark lá no blog.

Letras de Babel said...

olá, isaac

thanks :)

quanto ao post eu compreendo que este género escape a apreciações. já é intuir muito chegar à metade deles...que foi o teu caso.
nevermind...também não é importante.

leonard cohen...conheces alguma frase dele que não seja divinal?

bj

o alquimista said...

Quanta amargura...esta janela precisa ser aberta...sai...ama...voa...areja...!

Doce beijo

Letras de Babel said...

alquimista,

e vocês a darem-lhe com a amargura..

eu nem pensava que este post fosse comentado. fui um pouco apanhada de surpresa.
mas olha, isto pode ser muita coisa, que não preciso, nem consigo, nem quero traduzir apenas num adjectivo. de qualquer maneira, amargura...não.

abrir a janela? (a minha parte, já que são três vidraças). para quê? são como fotografias, fixas no tempo. o resto pode acontecer sem mexer em fechaduras...

(tenho de tratar, assim que possa, de postar alguma coisa tipo cómica ou assim...)
:)

bj

Anonymous said...

Pois é, Nan, mas isto até tem muito que se lhe comente.
Também não encontrei amargura aqui. Antes um prazer muito teu em guardares as tuas coisas e espreitá-las quando bem te apetece. Eu sei que há coisas que não queremos mandar pela janela fora...Soubesse eu traduzir as minhas assim, ou apenas conhece-las como pareces conhecer as tuas!

Beijoca!

Sérgio Mak said...

Não há problema, já me chamaram coisas mt piores. E um espelho reflecte coisas de muitas maneiras, por isso nem sempre procuro ler coisas que sejam o reflexo daquilo que escrevo ;)

Letras de Babel said...

Mak,

também tens um daqueles espelhos de dupla face onde não sabemos bem se a nossa se parece mais com a imagem pequena ou com a ampliada?
refazendo: em que sabemos mas escolhemos para qual delas olhar?

Sam said...

Arrepiante de tão bom.

Letras de Babel said...

bjorn,

não devias ter espreitado pelas janelas...realmente, para lá delas não há calor...
:)

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