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O caderno mais igual que os outros
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O que tem de especial um pequeno caderno de capa preta oleada? Nada, pensará a maioria. Tudo, dirá quem nele escreve.
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(...) A importância que assumiu este artefacto no imaginário de incontáveis pessoas do meio literário, intelectual e artístico, explica-se em duas palavras: Qualidade e Marketing.
Qualidade: este é, pelo menos, o ponto de partida. Foi a qualidade dos cadernos que levou ao seu uso generalizado no início do século XX entre personagens parisienses como Matisse, Céline e Hemingway que nos anos vinte estava radicado na capital francesa.
Os cantos arredondados para não magoar, nem rasgar o tecido dos bolsos (onde cabe perfeitamente, devido ao tamanho 9x14cm); o elástico que mantém o caderno fechado e as folhas direitas; a capa dura, impermeável, que guarda as folhas da sujidade e do pó; a bolsa no final para guardar papéis, recibos, notas; o marcador, sempre útil; as tabelas conversoras de medidas, quer de volume, quer de distância, quer de tamanho de roupa; e, não menos importante que tudo isto, a qualidade do papel, suficientemente grosso para ser resistente mas suficientemente fino para garantir um peso perfeito.
Foram aspectos como estes que levaram o escritor e aventureiro Bruce Chatwin (autor do mítico "Na Patagónia") a estarrecer, incrédulo e abatido, quando o dono da sua papelaria o informou que os Moleskine já não existiam, uma vez que a família que os produzia tinha cessado essa função.
Chatwin comprou o restante stock (...). O seu entusiasmo contagiou Sepúlveda, a quem ofereceu um Moleskine novo. A importância que esta oferta teve sobre o escritor chileno pode-se medir pelo título do seu livro "Moleskine: Apuntes e Reflexiones", traduzido para português como "Uma História Suja".
E com isto somos chegados à segunda palavra: Marketing. De génio, aliás. Quem compra um Moleskine hoje, ficará surpreendido ao descobrir que os actuais fabricantes, os italianos Modo e Modo, apenas começaram a produzir e vender Moleskines em 1998. As tarjetas que acompanham cada compra, bradam, para quem ainda não souber, que se trata do "Lendário caderno de Hemingway, Picasso e Chardwin" (...).
E depois há a grande variedade; desde a sua "reencarnação" que os cadernos se têm multiplicado em tamanhos e formatos. Para além do mais clássico e mais vendido, também existem Moleskines com folhas lisas e aos quadrados e de tamanho A4. Há cadernos para arquitectos, para guardar moradas, para artistas e realizadores de cinema; Moleskines com pautas, para músicos...ao todo, são mais de 30 modelos diferentes.
Quando um objecto conquista um determinado estatuto, é normal que assuma proporções inimaginavéis. Há blogs, foruns, uma panóplia de artigos de imprensa e inúmeras páginas dedicadas ao objecto que veio provar que nem todos os cadernos nascem iguais.
Um exemplo é o Moleskinerie, uma página multifacetada que funciona como um blog, ponto de encontro de fãs, e também como sede virtual da iniciativa da Wondering Moleskine Project (WMP). Basicamente, o WMP é formado por uma listagem de nomes e moradas e uma série de cadernos que vão viajando pelo mundo. Cada vez que se recebe um, preenche-se uma página da forma que apetecer e envia-se para o nome seguinte na lista.
(...) Neste momento existem 13 Moleskines a viajar pelo mundo, de Lisboa à Nova Zelândia, da Suécia até Hong Kong. O caderno ignora a existência de fronteiras e compreende todas as línguas que nele vão inscritas.
Porque no fundo é esta a essência da mística dos Moleskine: podem ter nascido de uma mistura híbrida de marketing e qualidade, podem estar na sua segunda encarnação mas vivem, essencialmente, de uma imagem de viajantes e aventureiros. (...) Os utilizadores do pequeno e imortal bloco de notas são os Chatwins do século XXI. Compram Moleskines de forma quase ritual e partem para a descoberta e aventura. Se nunca chegam a acompanhar físicamente os seus cadernos o que é que importa? O importante, mesmo, é viajar.
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in Os Meus Livros
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(...) A importância que assumiu este artefacto no imaginário de incontáveis pessoas do meio literário, intelectual e artístico, explica-se em duas palavras: Qualidade e Marketing.
Qualidade: este é, pelo menos, o ponto de partida. Foi a qualidade dos cadernos que levou ao seu uso generalizado no início do século XX entre personagens parisienses como Matisse, Céline e Hemingway que nos anos vinte estava radicado na capital francesa.
Os cantos arredondados para não magoar, nem rasgar o tecido dos bolsos (onde cabe perfeitamente, devido ao tamanho 9x14cm); o elástico que mantém o caderno fechado e as folhas direitas; a capa dura, impermeável, que guarda as folhas da sujidade e do pó; a bolsa no final para guardar papéis, recibos, notas; o marcador, sempre útil; as tabelas conversoras de medidas, quer de volume, quer de distância, quer de tamanho de roupa; e, não menos importante que tudo isto, a qualidade do papel, suficientemente grosso para ser resistente mas suficientemente fino para garantir um peso perfeito.
Foram aspectos como estes que levaram o escritor e aventureiro Bruce Chatwin (autor do mítico "Na Patagónia") a estarrecer, incrédulo e abatido, quando o dono da sua papelaria o informou que os Moleskine já não existiam, uma vez que a família que os produzia tinha cessado essa função.
Chatwin comprou o restante stock (...). O seu entusiasmo contagiou Sepúlveda, a quem ofereceu um Moleskine novo. A importância que esta oferta teve sobre o escritor chileno pode-se medir pelo título do seu livro "Moleskine: Apuntes e Reflexiones", traduzido para português como "Uma História Suja".
E com isto somos chegados à segunda palavra: Marketing. De génio, aliás. Quem compra um Moleskine hoje, ficará surpreendido ao descobrir que os actuais fabricantes, os italianos Modo e Modo, apenas começaram a produzir e vender Moleskines em 1998. As tarjetas que acompanham cada compra, bradam, para quem ainda não souber, que se trata do "Lendário caderno de Hemingway, Picasso e Chardwin" (...).
E depois há a grande variedade; desde a sua "reencarnação" que os cadernos se têm multiplicado em tamanhos e formatos. Para além do mais clássico e mais vendido, também existem Moleskines com folhas lisas e aos quadrados e de tamanho A4. Há cadernos para arquitectos, para guardar moradas, para artistas e realizadores de cinema; Moleskines com pautas, para músicos...ao todo, são mais de 30 modelos diferentes.
Quando um objecto conquista um determinado estatuto, é normal que assuma proporções inimaginavéis. Há blogs, foruns, uma panóplia de artigos de imprensa e inúmeras páginas dedicadas ao objecto que veio provar que nem todos os cadernos nascem iguais.
Um exemplo é o Moleskinerie, uma página multifacetada que funciona como um blog, ponto de encontro de fãs, e também como sede virtual da iniciativa da Wondering Moleskine Project (WMP). Basicamente, o WMP é formado por uma listagem de nomes e moradas e uma série de cadernos que vão viajando pelo mundo. Cada vez que se recebe um, preenche-se uma página da forma que apetecer e envia-se para o nome seguinte na lista.
(...) Neste momento existem 13 Moleskines a viajar pelo mundo, de Lisboa à Nova Zelândia, da Suécia até Hong Kong. O caderno ignora a existência de fronteiras e compreende todas as línguas que nele vão inscritas.
Porque no fundo é esta a essência da mística dos Moleskine: podem ter nascido de uma mistura híbrida de marketing e qualidade, podem estar na sua segunda encarnação mas vivem, essencialmente, de uma imagem de viajantes e aventureiros. (...) Os utilizadores do pequeno e imortal bloco de notas são os Chatwins do século XXI. Compram Moleskines de forma quase ritual e partem para a descoberta e aventura. Se nunca chegam a acompanhar físicamente os seus cadernos o que é que importa? O importante, mesmo, é viajar.
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in Os Meus Livros
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20 Agosto 2006
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