Tactear o transitório. Ser fulguração. Sentir o esgar da revolta, da ironia, do espanto...

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O Génio do Absurdo
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Boris Vian (1920-1959) foi um dos mais extraordinários criadores franceses do século XX. Formou-se em Engenharia, mas seria pelas artes que o mundo registaria o seu nome. Apaixonado pelo jazz (tocava, inclusive, trompete), boémio incorrigível, deu à luz títulos absolutamente inesquecíveis, como "O Arranca Corações", "A Espuma dos Dias", "O Outono em Pequim" ou a "Erva Vermelha".
Viu-se envolvido numa enorme polémica com a tradução de alguns livros de Vernon Sullivan: "Morte aos Feios", "Elas não dão por nada", "Os Mortos têm todos a Mesma Pele" ou "Irei Cuspir-vos na Campa". Trata-se de uma série de romances "negros" ao bom estilo série B, com muito sexo, violência e até algumas estocadas à política externa francesa. Falta acrescentar que Sullivan não era outro senão o próprio Vian.
Antimilitarista convicto, ficou célebre a sua balada "O Desertor". Integrou o Colégio dos Patafísicos, "a ciência das soluções imaginárias", corrente fundada por Alfred Jarry, onde se encontram nomes como Eugène Ionesco ou Jacques Prévert.
Desde muito novo que sofria de problemas cardíacos. Viveu toda a sua existência com velocidade e muito humor e nem na morte abandonou o registo satírico que o levou a criar tantos - e tão difíceis de traduzir - vocábulos.
Morreu aos 39 anos, durante uma projecção privada da adaptação para cinema de "Irei Cuspir-vos na Campa".
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in Os Meus Livros
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Citações:

(...) as medidas que seria conveniente encarar como sendo para tomar um dia, a poligamia obrigatória, por exemplo, e não me oponho à poliandria, descansem...não temos assim tantas oportunidades de descansar.

Concebo sem dificuldade anúncios deste género: «Fazer amor com uma mulher loura é bom...mas será que já experimentou as morenas?» Quem ousará? Ou esta assim: « Dormir com uma mulher bonita, sim, claro, mas será que sabe o que é dormir com uma mulher feia?» No dia em que virmos anúncios deste género no France-Soir ou no Paris-Presse poderemos dizer que a literatura erótica ganhou o seu lugar ao sol.

Detesto acima de tudo as mulheres que julgam que podem ser feias porque são inteligentes. Felizmente, nunca encontrei uma mulher inteligente.

Porque é que as cantoras bonitas são sempre casadas com o sax tenor da orquestra? E será por isso que toda a gente toca sax tenor?

Não esquecemos nada daquilo que queremos esquecer; é o resto que esquecemos.

Julgo ter custado menos à França do que Napoleão; e no entanto, ele é muito mais conhecido do que eu.

Porque é que temos vontade de mijar de cada vez que encontramos uma posição confortável para dormir?

(...) está-se bem no hospital...no hospital tens camas, tens enfermeiras para te servir...mas lá está, para te meterem no hospital é preciso que estejas doente...E depois não aproveitas nada.

Sobre a Morte - Uma saída é uma entrada que se toma no sentido inverso.
Sem militares nem padres porque o meu sonho foi sempre morrer sem intermediários.

Pra fazer um soldado é preciso desfazer um civil.

No dia em que ninguém regressar de uma guerra, é porque ela terá enfim sido bem feita. Nesse dia, dar-nos-emos conta de que todas as tentativas abortadas até então foram obras de farsantes. Nesse dia, dar-nos-emos conta de que basta UMA guerra para apagar os preconceitos ainda ligados a este modo de destruição. Nesse dia, será, para sempre, inútil recomeçar.

- E dá bons resultados, a democracia?
- Não é possível saber. É segredo.

Dizer idiotices, por estes dias em que toda a gente reflecte profundamente, é a única forma de provar que temos um pensamento livre e independente.

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20 Maio 2006

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