Tactear o transitório. Ser fulguração. Sentir o esgar da revolta, da ironia, do espanto...

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Eixo de amor epistolar
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"Entre Moscovo, França e Suíça forma-se um triângulo poético-amoroso entre três poetas do século XX: Boris Pasternak, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaieva". As cartas que trocaram durante seis meses em 1926 (sem nunca se conhecerem), editadas em volume, servem agora a Inês de Medeiros para uma encenação teatral em torno de uma partilha de palavras intensamente lírica e arrebatadora. Medeiros é Tsvetaieva, poetisa russa exilada em França; Claúdio da Silva dá corpo a Rilke, checo radicado na Suíça, tomado pela doença; e Amândio Pinheiro interpreta Pasternak, poeta russo animado pela Revolução, a viver em Moscovo. A encenadora reúne em palco os três corpos que na realidade não se chegaram a encontrar, embora acredite que as suas cartas dêem a conhecer "um desejo de amar capaz de anular as distâncias", um amor que era "também exigente, impulsivo e egoísta". E pergunta: "quem se ama, o poeta ou o homem? Quem ama? Quem é amado?", numa tentativa de retomar, 80 anos depois, a vibração daquele fugaz eixo poético que atravessou a Europa.

No CCB, 12 a 15 de Abril - in Agenda LX Abril
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“Eu lia a tua carta a bordo do oceano, e o oceano lia-a comigo” (Tsvétaieva)

“Tu és o meu único céu legítimo e a minha mulher” (Pasternak)

“Como é que nos tocamos? Por golpes de asa” (Rilke)

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Robert Dessaix diz-nos que os triângulos transformam as linhas rectas em espaços.
E diz-nos a Física que a luz se propaga no ar e que tem três grandezas básicas: o brilho (ou amplitude), cor (ou frequência), e polarização (ou ângulo de vibração). Devido à dualidade onda-partícula, a luz exibe simultaneamente propriedades quer de ondas quer de partículas. E que propagando-se em meio homogéneo, a luz percorre sempre trajectórias rectilíneas; somente em meios não-homogéneos é que a luz pode descrever "curva".

Precisamente.

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15 Abril 2007

29 comentários:

Letras de Babel said...

Se a admiração e o respeito que os une como poetas são autênticos, a relação amorosa que entre eles se estabelece é profundamente marcada pela distância e a ausência de contacto.
Apesar da expectativa de um dia se encontrarem estar sempre presente nas suas cartas, esta confrontação é sempre adiada, como se ela viesse impor uma realidade que nenhum deseja.
Um amor epistolar é um amor sem gestos e sem silêncios. Os silêncios são imediatamente preenchidos por novas palavras que os moldam, criam, e inventam. Palavras de poetas que exigem do outro o seu próprio ideal amoroso, que abraçam todos os paradoxos e contradições inerentes ao próprio acto de amar.
O projecto de levar à cena estes textos nasce da vontade de dar um corpo (esses corpos que nunca se cruzaram) a três vozes, três miragens dominadas por um desejo de amar capaz de anular as distâncias, a ausência e a solidão, mas também exigente, impulsivo eegoísta.
Um amor que nasce da Poesia, que vive da sua capacidade de evocação mas que esbarra com os dolorosos limites da idealização.
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“O amor odeia o poeta. O amor não quer ser magnificado, toma-se por um absoluto, o único. E não confia em nós. Sabe, no mais profundo de si próprio, que não é magnífico (daí a sua tirania!), sabe que toda a magnificência é — alma, e onde a alma começa, o corpo acaba. Puro ciúme, Rainer, o mais puro. Como o da alma perante o corpo.”

Inês de Medeiros

St. J. said...

______________________...

(também me dá na veneta pró disparate)

Letras de Babel said...

tenho a agradecer-vos, esta noite, umas belas gargalhadas...


quer dizer, não são bem gargalhadas nem belas.
mas pronto, ri-me um bocadinho

:))

___________

bjs

St. J. said...

Nós também agradecemos. Mas, primeiro fizémos uma cara estranha. Depois, a coisa ficou melhor. Finalmente, até demos umas quantas gargalhadas. Não foram assim muitas, mas, vá lá, mesmo assim ainda foram gargalhadas.

E prontos! Lá a história de não entendermos a tua tensão, olha que isso é que não está certo!!! Primeiro devias dizer-nos que estavas com tensão, que, porra, essas coisas, a gente até entende...
;)

Letras de Babel said...

nem eu a entendo, quanto mais...
[sobretudo por ser alta ;)]

nem entendo o resto. mas isso deve-se a eu andar com a cabeça muito ocupada a querer entender os diplomas do sócrates, maila (como diria a nnanna) pós graduação em dez dias...

Abssinto said...

Interessantíssimo, embora a literatura epístolar e diarística (diz-se assim?!) não sejam a minha chávena de chá. Falta-me conhecer no mínimo o principal de Rilke.

Bom domingo, nan!
bj

Gi said...

Por isso a semana passada foi a dediquei ao Rilke, fiquei com curiosidade em conhecer mais a obra dos outros dois e sobretudo a troca de correspondência entre os 3. Apenas tenho literatura do Rilke durante e após ter sido secetário do Rodin.

Beijinho e resto de um bom Domingo

Letras de Babel said...

sim, abssinto, diz-se assim.
quanto ao resto, bem diz o povo que há uma tampa para cada tacho.
no meu caso, sempre me interessaram mais os escritos de ordem biográfica, auto-biográfica, históricos e afins. hoje, cada vez me interessa menos o género ficção. excepção feita à poesia. mas a poesia não é um género. é o universo das almas.

***

há muita coisa sobre os três, individualmente, na net (e não só, como é obvio), gi. encontrei esta visão interessante sobre a marina tsvetaieva, por exemplo, aqui:

http://www.sibila.com.br/batepro37tsvetaieva.html

sobre os três, em conjunto, nada excede este livro de correspondência, por muitas visões exteriores do fenómeno que existam.

***

beijos

Citadino Kane said...

Nan,
Deixo-te com as linhas de um poeta que já não habita entre nós... Paulo Leminski, presente!

O MÍNIMO DO MÁXIMO


Tempo lento,
espaço rápido,
quanto mais penso,
menos capto.
Se não pego isso
que me passa no íntimo,
importa muito?
Rapto o ritmo.
Espaçotempo ávido,
lento espaçodentro,
quando me aproximo,
simplesmente medesfaço,
apenas o mínimo
em matéria de máximo

o monstro said...

Pouco te trago.

Apenas deixo aqui um mimo, porque sinto e devo.

boa semana

inimaginavel said...

Será um espaço melhor que uma linha recta?
Não sei...
Bjs

Anonymous said...

já que não posso ir ver tão belo espectáculo, vou tratar de comprar o livro e deliciar-me com a leitura

a avaliar pelas citações, será um sonho em forma de palavras ;)

beijo imenso, nan

VdeAlmeida said...

O Rilke é um dos meus poetas favoritos, apesar do cuidado que se deve ter na sua leitura.
Da poetisa não conheço nada. No entanto já li sobre o espectáculo da Inês. Favoravelmente, como é costume.
Ah! E já me esquecia do Pasternak: como é que o homem conseguiuu tempo para escrever o Doutor Jivago?

un dress said...

tomar como regra:

a do pó. penetrado pelo sol.

(ouvir-se de lá o eco:

onde a alma começa

o corpo

acaba...)



abraçO

isabel mendes ferreira said...

este livro é um verdadeiro hino aos afectos.


portentoso.


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_________________


beijo Nan.







(brilhante o post)

Bandida said...

cada vez mais acho que me (nos)elevas ao passar por aqui.

a leveza da palavra e a cumplicidade do estar. é bonito. é bonito. é bonito.


beijos Nan. meus.

B.
_______________________________

Maria Strüder said...

O Amor é um animal selvagem que não quer ser domesticado

Anonymous said...

Tenho absolutamente que ler isto! Obrigado por partilhares.

Letras de Babel said...

para a un dress, que sabe que a verdade de tanta coisa está no seu contrário.

para a inimaginável, que se interroga sobre coisas de respostas impossíveis e não se cansa disso.

para a alice da delicadeza em todas as letras, que tem, de certeza, um saquinho de fragâncias doces a perfumar-lhe as gavetas da alma.

para o yardbird que escolheu aquela cara de menino-surpresa-tristeza para que não nos esqueçamos do fundamental. que não nos esqueçamos que nem só nós fomos crianças.

para a maria a quem tenho de dizer que as coisas não acabam no fim que lhes pomos; elas têm a sabedoria de quem é mais velho que nós.

para o arion que agradece a partilha que eu agradeço. e que sabe o que é refrescante.

para a isabel, de quem leio "tenho no coração a marginalidade dos tristes", ou "...e o fundo é mais perto/ mais largo e denso/ e nenhum lado é o lado do encanto" e outras coisas leves e pesadas que levo prá cabeceira e me distinguem um sonho do outro.

para a bandida que consegue ser mais bonita do que as coisas que diz. que faz a diferença como uma pincelada de azul em quadros inacabados.

para o passenger que pensa que me trouxe pouco.

para o pedro que me fez ir descobrir que o paulo leminski era "um apanhador de arrepios".

***

para vocês a quem me faltava responder [como para todos os que têm andado por aqui sempre na borga (uns borgueses, é o que são) :)],

todos os meus beijos serão poucos e pequenos.

Anonymous said...

querida nan, não tenho um saquinho de fragâncias mas vou fazê-lo com as palavras que me diriges ;) vim visitar-te apesar de ter feito uma breve pausa no blog. beijinho_s *

un dress said...

...vim ver!!!

os cenários são diferentes.

mas curiosamente...

complementares!


beijO*

Letras de Babel said...

que te perfume o tempo, alice.

(também estou a fazer umas pausas. ou antes, a ensaiá-las...)

***

o princípio é o mesmo, un dress.
eu é que aldrabei isto tudo :)

http://letrasdebabel.blogspot.com/2006/12/isto-importante-brava.html

sonhadora said...

porque sonhar não custa...
beijinhos embrulhados em abraços

Anonymous said...

o livro é «enorme», está para além do que alguma vez pensei alcançar.

Letras de Babel said...

às vezes, sonhadora, às vezes...

***

denso, af, tão denso como a matéria e o seu contrário. furou o tempo, o espaço e o que denominamos de razoável.
mas o inimaginável está mais perto de nós do que imaginamos...

Isabel Victor said...

Profundamente inspirador ...

" três miragens dominadas por um desejo de amar capaz de anular as distâncias ..."

*
isabel

Isabel Victor said...

“Como é que nos tocamos? Por golpes de asa” (Rilke)

Fabuloso !!!

Letras de Babel said...

miragens, produto da sede...

bjs, isa v.

rafaela said...

Lembraste-me do quanto eu queria ler este livro, depois esqueci-me dele...

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