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De tempo e de perda
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Se estivesses aqui e eu deitasse o meu pescoço para trás, nesta cadeira do escritório, fechasse os olhos e suspirasse, tu não terias a certeza se eu estaria cansada, quisesse ir buscar imagens de algo de nós lá muito dentro da memória, ou se um bem estar invulgar teria tomado conta de mim.
Se me levantasse de repente e fosse a andar pelo corredor com passos apressados, não adivinharias porque o estaria a fazer ou sequer se era meu costume fazê-lo. Para a sala baixar o som da música porque estava a mais entre mim e a tua voz ou porque me doía a cabeça? Para a cozinha porque tinha a boca seca? Sede ou nervosismo? E saberias o quão raramente eu bebo água?
Se para a mesma sala te levasse e me sentasse no lado esquerdo do sofá de três lugares – o que fica em frente à televisão – não terias a certeza se o fizera porque era um hábito de sempre, porque queria ver bem a notícia que estava a passar no écran ou porque queria deixar espaço ao meu lado para que te sentasses onde querias sem ser preciso ser explícita e assim impedir-te de te sentares num dos outros sofás só de um lugar, inseguro.
Se eu te tocasse no cabelo como saberias que era uma indicação da memória cativa das palavras trocadas «eu, ontem, não falei em cabelos por acaso» «tu nunca dizes nada por acaso, não sei se já reparaste» ou se era uma mania minha mexer no cabelo das outras pessoas?
Se, finalmente, te abraçasse, te beijasse (até onde fosse longe...) e, pelo meio, te dissesse que já sabia o quanto a tua boca era contornável (e tu murmurasses que sim, provavelmente a parte mais contornável de ti) para, de seguida, te encaminhar para a porta de saída, perto da qual tinhas estado tanto tempo, já exangue, não saberias se o faria por, afinal, não ter sentido aquele fogo, quase cinematograficamente, tão falado entre nós, por não saber que fazer com tão pouco espaço entre os dois, ou simplesmente por querer esperar por ti (e pelo resto que ainda seria nosso) para o dia seguinte, por ter percebido que esperar sempre um pouco mais era o que de melhor tu e a vida me podiam dar e o que melhor me sabia. O sempre em lugar do já. Para sempre.
Se estivesses aqui e eu deitasse o meu pescoço para trás, nesta cadeira do escritório, fechasse os olhos e suspirasse, tu não terias a certeza se eu estaria cansada, quisesse ir buscar imagens de algo de nós lá muito dentro da memória, ou se um bem estar invulgar teria tomado conta de mim.
Se me levantasse de repente e fosse a andar pelo corredor com passos apressados, não adivinharias porque o estaria a fazer ou sequer se era meu costume fazê-lo. Para a sala baixar o som da música porque estava a mais entre mim e a tua voz ou porque me doía a cabeça? Para a cozinha porque tinha a boca seca? Sede ou nervosismo? E saberias o quão raramente eu bebo água?
Se para a mesma sala te levasse e me sentasse no lado esquerdo do sofá de três lugares – o que fica em frente à televisão – não terias a certeza se o fizera porque era um hábito de sempre, porque queria ver bem a notícia que estava a passar no écran ou porque queria deixar espaço ao meu lado para que te sentasses onde querias sem ser preciso ser explícita e assim impedir-te de te sentares num dos outros sofás só de um lugar, inseguro.
Se eu te tocasse no cabelo como saberias que era uma indicação da memória cativa das palavras trocadas «eu, ontem, não falei em cabelos por acaso» «tu nunca dizes nada por acaso, não sei se já reparaste» ou se era uma mania minha mexer no cabelo das outras pessoas?
Se, finalmente, te abraçasse, te beijasse (até onde fosse longe...) e, pelo meio, te dissesse que já sabia o quanto a tua boca era contornável (e tu murmurasses que sim, provavelmente a parte mais contornável de ti) para, de seguida, te encaminhar para a porta de saída, perto da qual tinhas estado tanto tempo, já exangue, não saberias se o faria por, afinal, não ter sentido aquele fogo, quase cinematograficamente, tão falado entre nós, por não saber que fazer com tão pouco espaço entre os dois, ou simplesmente por querer esperar por ti (e pelo resto que ainda seria nosso) para o dia seguinte, por ter percebido que esperar sempre um pouco mais era o que de melhor tu e a vida me podiam dar e o que melhor me sabia. O sempre em lugar do já. Para sempre.
E mais ses. E os teus ses. E o tempo que já não me autoriza incertezas
Olha o cigarro que, no cinzeiro, se apaga sem chegar ao fim. Outros ardiam até àquele cheiro de papel queimado. Tinha existido um tempo em que a seduziam as evidências dos mistérios.
Cansada, larga a noite já sem rituais. Mais uns passos até à cama - lenitiva. Onde, pouco a pouco, a certeza de não fazer qualquer sentido um encontro entre eles adormece com ela.
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19 Março 2007
20 comentários:
Se ela simplesmente, alheada, nada dissesse. Se se deixasse baralhar nessa vida de ilusões sem muito esperar. Se não medisse os gestos ou as reacções. Talves se ela mesma escolhesse o sofà de apenas um lugar. Se deixasse as palavras escorrer por acaso. Talvez se fumasse menos, tomasse menos ansiolìticos, visse menos televisão... Se acariciasse cabelos porque sim. Se pensasse menos hipoteticamente, claro, quem sabe...
Belo naco de texto.
os ses matam... pelo menos a mim mataram
f
u
l
g
u
r
a
n
t
e!
talvez não o tempo
mas tu.
apaga o relógio.
ouve as
cada vez
MaiOreS
incertezas.
as incontornáveis...
aninha-te nelas
agora.
ama-as...
e deixa
passsssaaaa(ar)...
*
... fiquei presa na fotografia. tem deveras um significado especial para mim. usei-a para ilustrar um texto que me escreveram. e não pude deixar de resistir à viagem no tempo que a memória permite. e recordar o que dela me trouxe a experiência da vida. e acredite que há de facto um sofã de três lugares junto ao peitoril onde tudo se passou ;) não podia bater mais fundo este post, permita-me a expressão. um grande beijinho.
Se um dia eu pousasse em ti
Talvez de pássaro me visse o rosto
Quem sabe gaivota ou colibri
Ou simplesmente um beijo com o teu gosto...
Se um dia voltasse de mim
Talvez vulcão na ternura de uma janela
Quem sabe flor, aroma de jasmim
Ou simplesmente vento de aguarela...
Se um dia fosses tu
Talvez andaime, em procissão de nós
Quem sabe um templo de granito e bambu
Para que nunca nos sentíssemos sós
sento-me no sofá de lá. no outro lado.
dá-me lume.
...
arrasador o teu texto.
B.
______________________________
...
a cinza, no cinzeiro
o fumo, na casa
mais uns passos
(adormeço)
bj
(belo texto)
Muito bonito.
mas felizmente, quando se sente assim a visão tolda-se e o futuro nem sempre corresponde à emoção vivida.
a imaginação frui num sistema contínuo e a vida insiste em ser pautada por cortes, insistências e desistências.
It's been awhile since I found another blog to follow
thank you for sharing
*
PS:na vontade de partilhar aqui fica:
BEIJO
Roubei-te um beijo
Aquele ontem
Quando falaste
No meu ouvido
Quando cansei
De ter sofrido
Lembras-te ainda
Ou não parece
Porque te vais
Sempre tão cedo
Sempre me deixas
Sem ter partido
by "Maria Araújo"
Olá nan
li-te, li-te, li-te. como sempre. e gostei, para não variar.
mas largo o computador e levanto-me sempre com a mesma dúvida. vou à cozinha. à casa de banho. oiço um som, ou outro, leio mais umas revistas e uns livros e não me larga o raio da dúvida.
Por isso deposito-te a tal minha chata e impertinente dúvida aqui, para ver se o raio da coisa não me ocupa mais a encefalite. tem esta forma e conteúdo:
ela escreve bem!
tem umas ideias
próprias!
tem
estilo!
Como seria então
se pintasse sorrisos?
-->um sorriso que não é tonto
tem um enorme potencial
a Virtude
pode ser divertida<--
->'ei-zia', a dúvida<-
A agora,
o importante: tás bem?
Bem...murros destes nao levo todos os dias.
Monotone...
bj
os ses fazem o tempo rodar em tornado e raramente deixam as coisas bonitas de pé.
boa noite, nan. demorei-me a visitá-la porque queria dedicar-lhe tempo e atenção e carinho. o seu comentário teve um significado muito especial. respondi in loco, mas não poderia deixar de vir agradecer-lhe as palavras que me dedicou. além do prazer garantido que é cada visita. tem recebido comentários belíssimos que sem dúvida merece. mas não esperava que num curto espaço de tempo em que mutuamente nos visitamos fosse tão generosa comigo. fico-lhe sinceramente grata. bem haja. e um grande beijinho. e desculpe se o meu registo é este. não sei de facto expressar-me melhor. só sei que me tocou. felicidades para si *
NAN
NAN
NAN
NAN
______________se eu fosse Poeta....
raptava este texto cheio de ses e vestia-O de sins!
como não sou
desejo.Te um dia cheio de P O E S IA...
beijos.
hidra_de_lerna - se lhe tivesses dito isso tudo, antes...
hipoteticamente, claro.
quem sabe...
absorbent - os ses só matam quando já não ocupam lugar. e, ainda assim, surgem outros...
(porque raio será uma palavrita tão pequena tão importante?)
Isabel - fulgurante!: letra a seguir a outra letra até à explosão.
estupenda representação da palavra.
e que tenhas tido um excelente Dia da Poesia. cheio de ses metamorfoseados em sins.
un dress - Facing a demon. Repell obsession. Revive possession. And let go.
(frase que, aliás, já usei, mais do que uma vez, como descrição do blog)
Alice - coincidências, vivências, sensibilidades...
permito sempre as tuas palavras. só que, já te disse, gostava que me tratasses por tu :)
quanto ao 2º comentário, you're welcome, dear. anda a life full of joy to you!
Pedro - Pedro-sempre-Poeta.
...Se um dia eu pousasse em ti
...Se um dia voltasse de mim
...Se um dia fosses tu
bonito. muito.
Bandida - sentas-te no sofá do outro lado...
diz-me: que vês?
intruso - um passo a seguir ao outro..até se conseguir o sono:
AAL=? [decifra] :)
lellarap - toda a razão.
outra coisa: quem é a autora do poema? pesquisei pelo nome mas não a encontrei...
St. J. - obrigada, como sempre.
no meio disso tudo, o mais próximo da verdade serão as idéias próprias. que seria mesmo verdade não fora o património de influências que todos temos.
quanto ao sorriso, acredita (e independentemente da côr) eu 'pinte-ze-o' :)
(e estou 'maizómenos' bem, sim.)
Abssinto - queres mais destes? é que a partir do 15º round já não se sente lá grande coisa...:)
e...isso do "monotone" era porquê ou para quem?
não importa. lembrei-me dum episódio do silvester a perseguir o piu-piu. na perseguição esbarrava numa série de árvores e caía para trás, a ver estrelas. isto por um bom bocado. até que, depois da última queda, se virava para a câmara e dizia: "monotonous, is'nt it?". (nunca gostei muito de BD, nem em filme, mas achava piada a este).
assim sou eu...
(não devia ter dito isto; nos tempos que correm é assaz perigoso perseguir piu-pius...)
:)
Maria - diz-me que acertas sempre assim em tudo e eu mando-te já um boletim do euro-milhões!
mentira. prefiro receber, sempre, a tua lucidez.
________________________________
abraços. beijos.
_________________________________
agora nós, anónimo, que me mandou aquele comentário sobre a A.:
gabo-lhe esse doce fare niente que lhe permite perder tempo em fazer copys da mesma coisa para tantos blogs.
mas
empregue-o doutra maneira ou longe daqui
porque eu não alimento vampiros.
nan querida...vou agradecendo aos poucos e pedindo desculpas por tanto disparate que andaram por ai a fazer.
de qualquer maneira fui a primeira a fazer um post com o comentario deixado...normalmente faco posts com as barbaridades que vao deixando por la.
enfim nan...haja saude!
:)
hoje ja esta mudado.fechei os comentarios e deixei apenas algumas palavras do grande
Almada Negreiros...o resto, paisagem minha querida.
quero agradecer mais uma vez.
...sempre impecavel nan.
beijo meu.
ana
:)
nan...olha,nao sei se queres que publique o teu comentario ou se era so para mim.de qualquer maneira esta la guardadinho :))
desculpa mas nao sei onde sao os acentos neste pc ;))
não tens de pedir desculpa, ana...
...só se for para te desculpares por teres feito um post tão espectacular com aquilo que o teu "fão" te mimoseou...que eu não vou conseguir fazer melhor figura quando (e se) fizer um com o que o meu "fão" me mimoseia...
:)
já vi que mudaste o post e tiraste os comentários. tudo cool.
o meu, se calhar, era mais só entre nós. tanto dava...
portanto (como acabava lá):
beijos...e siga!
contigo a conduzir e comigo a picar os bilhetes :)
" o quanto a tua boca era contornável"...
Não imaginas o tanto que eu gostei deste texto ! Deste incontornável texto ...
Vou-te lendo ... vendo ... espeitando...
Hoje, falando-se de solidões, alguém disse que a internet não é um sítio mas tão somente um simulacro. A expressão da solidão dos tempos modernos.
Contesto esta diabolização da net ... aqui encontro muitas ideias e expressões que me inspiram.
Afinal, há tantas pessoas que julgamos conhecer e ...
simulacro é mais a vida fora disto. onde tudo nos força. quase escravidão.
aqui todas as fraquezas se dizem, mesmo quando se escondem. todos os gritos se ouvem. todas as lágrimas são verdadeiras.
...o que nos revela.
bjs, isabel v.
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