Tactear o transitório. Ser fulguração. Sentir o esgar da revolta, da ironia, do espanto...

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Regresso (ou o lugar onde morremos)
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No lugar onde pões as coisas que te fazem falta, dizes que me guardas
(não a mim, mas ao que não escrevo)
como um tesouro antigo ou como qualquer coisa para onde olhas
(à procura de inquietação)
quando queres encontrar o que não deve ser dito
(as não palavras).
No lugar onde guardas o que de ti não queres perder, dizes que carregas
(as bombas)
o que não atiras à vida. Como os teus olhares perdidos
(para onde olhamos quando vemos?),
como os teus olhares que hão-de ser, noutros lugares que não são iguais a esse onde agoras escondes os olhos de outros
(o que vemos, quando não olhamos?).
No lugar onde te carregas escondes os meus olhos para veres o que digo quando não quero dizer nada
(nunca tenho nada para dizer),
quando não há sequer uma palavra que apague o teu próprio peso. Dizes que guardas o meu lugar
(é onde?)
e que é o mesmo onde ainda não chegaste. E eu penso que nunca chegarás a esse pequeno sítio onde tantas vezes morri
(apenas por que não escrevi as palavras justas),
esse lugar diminuto que sou eu e não sou eu
(não existo)
porque por mais que o conheça não foi lá que me encontrei ou me perdi. Esse lugar não existe. Mas eu conheço-o
(o pânico)
como se andasse comigo onde me carrego
(aos dias).
Guardar as coisas que não são, não é suficiente para o que ainda queres ver. Guardar as coisas que os outros não têm para dizer, não traz
(o silêncio)
os gritos que escutarias se deitasses fora as bombas. Um dia, dizes, quando puderes
(voltar a não morrer)
escolherás as palavras
(justas)
para o que não tem resposta. Não chegarás a esse lugar onde imaginas que eu cheguei porque tens olhos
(e ainda queres ver)
e pernas e boca. E essas duas mãos das quais nascem os mapas com que chegarás a outros
(lugares)
dias. E
(se voltares a não morrer)
é neles que te farás explodir. Deita-me fora
(aproveita o silêncio),
eu não presto. Eu não conheço palavras justas
(eu já morri),
que possam ser guardadas como guardas as coisas que te são precisas. Não me guardes
(não há nada em mim que faça falta)
e depois escreve
(na ausência dos escombros),
porque onde deixares de escrever
(o lugar onde cheguei, sem ver)
é onde se encontra a morte para sempre.
...
Do blog da Elisa, que me autorizou a trazer isto que considero tão bom.

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15 Janeiro 2007

27 comentários:

n said...

é bom.

Letras de Babel said...

Original. Muito bom. Fiquei deslumbrada.

Ela tem lá mais coisas do género. A maioria parecem coisas escritas a duas mãos, sendo o resultado ainda escrito por uma terceira...

Abssinto said...

Tão negro. Não menos autêntico...

beijos

intruso said...

dá que pensar.......
(vontade de escrever)
(e de continuar vivo)

li algures
("Todos os Dias" acho, J.Reis-Sá)
"morre-se onde se entrega a alma"
(...capítulo sobre morte de avó de um dos personagens... sobre colchões e escolhas, perda... enfim.....)

beijo

n said...

no que toca ao editor das quasi edições já não posso dizer o mesmo...

Ricardo said...

Bom? Muito bom!

me said...

tss, tss... quando é bom rapina-se mesmo sem pedir autorização.

Letras de Babel said...

Negro mas com cookies, abssinto.

Como qualquer dark side que se preze...

...que é tão doce, às vezes.


_____

Beijos

Letras de Babel said...

intruso,

não te deu, também, assim uma vontade de escrever como ela?

(Comigo foi um impulso irresistível.)

como se contasses tempos ou anseios diferentes da mesma história...

(Já tenho linhas sem fim no meu bloco de notas. Que nunca publicarei, evidentemente.)


_________________________

Também me apeteceu, de repente, mudar o nome do meu blog para:

Morre-se Onde Se Entrega A Alma
[sobre colchões e escolhas...]

Seria um belo título, diga-se...

:)

Beijo

Letras de Babel said...

Passou-se alguma coisa menos boa contigo e com a Quasi Edições, nuno?

Letras de Babel said...

Olá, Ricardo

Muito, muito...

Uma pessoa lê tanta coisa que não parece possível, ainda, admirar-se com alguma coisa, não é?

A forma...
Sem quebras.

Beijo

Letras de Babel said...

me
or you
or something in between...

don't make [me] bad.

(more...)

________________

beijo em português

Jane said...

tantas vezes sempre naos

(muito bonito forte)

n said...

os fundadores das edições quasi foram o valter hugo mãe e o jorge reis-sá.

assim que o valter sai das quasi, para mim, em grande medida, acabam as quasi.

o jorge reis-sá é a parte mais pragmática e "comercial" das quasi...

aproveito para referir que o valter abriu uma nova editora: a objecto cardíaco.

Maria Strüder said...

Sim, bom sem palavras mas é bom muito bom!

Letras de Babel said...

Às vezes, cereja, muitos "não" dão vida a um enorme "sim"...

Picture:

Aos 25 anos.
Ele: Queres casar já comigo?
Ela: Sim!

Aos 45 anos (ou mais):
Ele: Queres casar já comigo?
Ela: Não digo que não. Nâo perdíamos nada em experimentar...

:)

Letras de Babel said...

Não sabia da história da Quasi, Nuno...

(também pouco fiquei a saber agora...)

Mas surgiu outra editora. Do mal (se algum grande mal existiu),o menos...

Letras de Babel said...

A Elisa tem de vir cá ver os "Bom" que este texto mereceu, Maria.

Beijinhos

St. J. said...

Nan, tu, nan.

Gosto quando te leio. Gosto quando noto que descobres, quando - dizes - te deslumbras. Nan, é lindo ser assim, como tu.

Não importa, népias de népias, a distância daquela feita de passos contados no chão. Os conta-quilómetros não existem para um abraço. Porque até se escreve.

Toma lá mais um. Sempre dos Maiores,
J.

Letras de Babel said...

Sempre a lembrar-me o que (não) existe.
O que (não)importa.
O que (não) se mede.

My sweet St. J.

One kiss

Elisa said...

Vim aqui. Vi os 'bom' e o 'nada menos autêntico' do abssinto... a uns e a outro, genuinamente: obrigada.

Letras de Babel said...

"não menos autêntico"*, Elisa, ou seja, autêntico na mesma...


Foi um autêntico sucesso, viste?
E nós é que temos de agradecer-te...

Beijos

Elisa said...

Tens toda a razão Nan, vi mal. Peço desculpa ao abssinto´.

Letras de Babel said...

O Abssinto manda dizer que não eram precisas desculpas, que percebeu o mal entendido.

E manda-te um beijinho :)

Elisa said...

outro para ele :)

Abssinto said...

Tinhas razao, afinal eu nao tinha la o e-mail...obrigado por avisares! beijo

Abssinto said...

lol só agora reparei, nas palavras cruzadas. beijos às duas:)

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