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22:00 horas - 09/08/2003 - 1ª página
" Que tendência para o kitsch, minha querida - mas Deus sai-se sempre em kitsch, não é verdade?"
in Fazes-me falta - Inês Pedrosa
Esta aflição de não saber o que pensas...não o que fazes ou farás, só o que pensas.Revejo os GNR no Coliseu. Sorrio perante o que, recentemente, designaram de preciosidade: «tu sabes lá, isso não existe à venda, diz quanto queres, eu compro» e que, afinal, está num estado lastimoso depois de centenas de visionamentos. Salva-se o Reininho na sua melhor época, a genialidade do Tóli, a loucura daquele puto de Lisboa na guitarra ( que será feito dele?)
Julieta Su e Sida...
A vida tem momentos únicos, inebriantes, digo eu, ainda com alguma lucidez, depois de um deles. Hoje, a caminho do trabalho, sem nenhum trânsito nem ninguém à vista no horizonte, agarrada ao volante, pescoço recostado, fechei os olhos. Desafio, tipo jogo «desta vez quero só sentir a red line, sem a ver». Lembro-me duma leveza inenarrável, duma paz desconhecida, lembro-me de ter pensado tantas vezes no desejo de morrer contigo, mais do que viver, ( as dissertações sobre a vida e sobretudo sobre a morte são o absinto dos poetas e dos filósofos...) e que, afinal, podia morrer ali, sózinha, sem ninguém saber porquê. Talvez tu soubesses, só tu, a alma, neste mundo, mais atormentada que a minha e que, apesar disso, consegue descer lá da tese sobre Verdade e Existência para logo a seguir brincar com as palavras e rir como um anjo - ou arcanjo, que é um grupo mais restrito. Vi a minha avó a levar-me o pequeno almoço à cama com a mesma seriedade com que me segurava quando eu me agarrava, a chorar, às pernas da minha mãe quando ela e o meu pai saíam, à noite, e eu não compreendia porque não me levavam. Lembrei-me do M. e da ventania que fez no dia do nosso casamento e de como o meu véu de sete metros se enrolava à volta dele durante as fotografias e de como ele se ria disso e de como eu estava aborrecida porque uma fotografia, para mim, naquele dia, era uma coisa solene. Lembrei-me do despertar do meu 1º parto, «está tudo bem, o menino está bem, descanse» e de mo trazerem horas depois, de olhar para ele e de pensar que não era assim muito diferente o sentimento daquele outro que tive quando soube que estava grávida, quando soube que tinha um filho em mim, esse sim, um momento único, porque ver, para mim, nunca foi tão importante como saber e sentir.
Voltaste-me de novo, naquele beijo até onde eu não sabia que existia, na doce ingenuidade de pensares que me vais ter por me tocares, qual menino em frente a uma montra de inacessíveis brinquedos que não sabe ainda que o momento da criação deles foi o momento em que eles lhe pertenceram.
Aqui abri os olhos e vi que estava a meio das faixas de rodagem sem me ter apercebido do desvio e sorri «assim não tive medo»E pensei (ainda) em ti e em como pensarias na tua responsabilidade no facto de eu desafiar a morte sem saberes que a verdade reside só em eu ter nascido a sentir demais a vida para a querer, para gostar dela ( os ditos populares, que desprezamos, sabem «tudo o que é demais...» )
Julieta Su e Sida...afinal era um bilhete só de ida, só se pagava uma vez...
Estou sózinha. «Tenho de comer qualquer coisa», penso, mas estou neste enleio, tão antigo e há tanto tempo interrompido, de escrever, de amar as palavras com que sou feita, as palavras do que vivi. Vou parar, prosseguirei mais tarde... ( 1ª regra dos decadentes ). Porque me fui lembrar dos decadentes e do Mário de Sá Carneiro ? E porque sinto, de repente, as interligações de tudo isto? Declamá-lo-ia para ti, lânguidamente estendida no sofá como se fosse numa cama de hospital. E depois talvez pusesse, no vídeo, um dos dois filmes da minha vida. Podia ser o Les uns et les autres, para desejar ver-te chorar comigo na cena final, tão majestosamente longa e intensa. E para desejar ver-me chorar ao fazer, depois, amor contigo.
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15 Novembro 2006
2 comentários:
O teu dote sacia-me tanto...
olhe que os seus votos não lhe permitem isso, sr. padre.
olhe que a conferência episcopal ou lá que foi, entre o papa e bispos, para se discutir a problemática de padres-celibato ou a reabilitação de padres casados, foi mais uma montanha que pariu um rato, sr. padre...
mas esteve muito bem nesse tipo de anagrama :)
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