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The more you ignore me, the closer I get
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As regras da atracção são afinal bastante claras, mesmo quando não parecem. Atraem-se, nas pessoas, os pólos de carga eléctrica oposta, como nas pilhas. O desejo atrai ausência de desejo; as palavras, silêncio; os encontros, solidão; e vice-versa... - repetia de si para consigo, enquanto avançava para o telefone para, mais uma vez, se preparar para ouvir apenas o som repetido a espaços regulares, do outro lado do fio. Surpreendia-se já há algum tempo com a regularidade com que pensava nele que, tinha a certeza, não lhe retribuía os pensamentos: com a frequência com que marcava os algarismos que compunham o seu número de telefone que, por precaução, discava apenas nas horas em que sabia ser muito improvável encontrá-lo em casa.
De vez em quando imaginava que, apesar do extremo cuidado que punha nas escolhas das horas, ele ouvia o telefone tocar mas evitava atender. Agradecia-lhe essa ausência de gesto que lhe permitia continuar a marcar o seu número sem nunca correr o risco de entrar realmente em contacto.
A não comunicação prolongou-se assim por muito tempo. E a sua ligação com ele foi das mais tranquilas, talvez, diriam outros, por não haver meio de se corporizar.
Mas como (segundo dizem) costuma acontecer mais cedo ou mais tarde, com o seu oposto, também aquela suposta ausência de relação acabou um dia.
Era sábado. Tinha resolvido não sair, como era hábito há muito tempo. Os lugares habituais provocavam-lhe cansaço, com os seus aglomerados de pessoas sempre iguais ao longo dos anos, com mais ou menos barriga, mais cabelos brancos ou menor quantidade de cabelo, acompanhadas pelas mesmas ou outras pessoas, com caras diferentes mas sempre iguais. Além do medo quanto à muito remota possibilidade de o encontrar.
Acabara de chegar a casa e preparava-se para pousar o auscultador através do qual encomendara o jantar quando, nesse preciso instante, sentiu o telefone tocar-lhe nas mãos.
Hesitou um momento, antes de atender.
Reconheceu de imediato a voz dele.
- Com quem...? - ouviu a sua própria voz perguntar, ao ouvi-lo pronunciar o seu nome - Tem a certeza que é este o número que queria ligar?...Não, deve ser engano, com certeza. O número está certo mas não mora aqui ninguém com esse nome. Ora essa...Boa noite.
Mais tarde tocaram à porta. Recebeu o jantar e pagou. Depois pôs a mesa e comeu, com os sons e as imagens da televisão em fundo.
Antes de dormir, pegou no comando do leitor de CD e seleccionou uma determinada faixa de disco que há meses lá estava. Ouviu-a, uma última vez.
Retirou o disco e partiu-o. Depois desse dia, nunca mais voltou a pensar nele. Nem lhe voltou a ocorrer pegar no telefone para tentar não encontrar uma pessoa.
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01 Outubro 2006
As regras da atracção são afinal bastante claras, mesmo quando não parecem. Atraem-se, nas pessoas, os pólos de carga eléctrica oposta, como nas pilhas. O desejo atrai ausência de desejo; as palavras, silêncio; os encontros, solidão; e vice-versa... - repetia de si para consigo, enquanto avançava para o telefone para, mais uma vez, se preparar para ouvir apenas o som repetido a espaços regulares, do outro lado do fio. Surpreendia-se já há algum tempo com a regularidade com que pensava nele que, tinha a certeza, não lhe retribuía os pensamentos: com a frequência com que marcava os algarismos que compunham o seu número de telefone que, por precaução, discava apenas nas horas em que sabia ser muito improvável encontrá-lo em casa.
De vez em quando imaginava que, apesar do extremo cuidado que punha nas escolhas das horas, ele ouvia o telefone tocar mas evitava atender. Agradecia-lhe essa ausência de gesto que lhe permitia continuar a marcar o seu número sem nunca correr o risco de entrar realmente em contacto.
A não comunicação prolongou-se assim por muito tempo. E a sua ligação com ele foi das mais tranquilas, talvez, diriam outros, por não haver meio de se corporizar.
Mas como (segundo dizem) costuma acontecer mais cedo ou mais tarde, com o seu oposto, também aquela suposta ausência de relação acabou um dia.
Era sábado. Tinha resolvido não sair, como era hábito há muito tempo. Os lugares habituais provocavam-lhe cansaço, com os seus aglomerados de pessoas sempre iguais ao longo dos anos, com mais ou menos barriga, mais cabelos brancos ou menor quantidade de cabelo, acompanhadas pelas mesmas ou outras pessoas, com caras diferentes mas sempre iguais. Além do medo quanto à muito remota possibilidade de o encontrar.
Acabara de chegar a casa e preparava-se para pousar o auscultador através do qual encomendara o jantar quando, nesse preciso instante, sentiu o telefone tocar-lhe nas mãos.
Hesitou um momento, antes de atender.
Reconheceu de imediato a voz dele.
- Com quem...? - ouviu a sua própria voz perguntar, ao ouvi-lo pronunciar o seu nome - Tem a certeza que é este o número que queria ligar?...Não, deve ser engano, com certeza. O número está certo mas não mora aqui ninguém com esse nome. Ora essa...Boa noite.
Mais tarde tocaram à porta. Recebeu o jantar e pagou. Depois pôs a mesa e comeu, com os sons e as imagens da televisão em fundo.
Antes de dormir, pegou no comando do leitor de CD e seleccionou uma determinada faixa de disco que há meses lá estava. Ouviu-a, uma última vez.
Retirou o disco e partiu-o. Depois desse dia, nunca mais voltou a pensar nele. Nem lhe voltou a ocorrer pegar no telefone para tentar não encontrar uma pessoa.
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01 Outubro 2006
6 comentários:
Envolvente...Visual...nocturno...Tinha que gostar de o ler. E desta feita lembraste-me do Morrissey.
Kiss
"I Will See You in Far Off Places"?
Damn...este teu catinho é "só" mais um dos meus must read!
Adoro! adoro! adoro!
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também gosto muito do teu e leio-o, como sabes...
bj
sorriso para ti. =)E bons dias e tardes e noites de fim de semana.
(engraçado como parece que sabes do que falas, quando comentas.)
b.,
se só parecesse...
vem-me à idéia, a propósito, uma coisa que li, sei lá quando:
«somos sempre um pouco do que parecemos, senão nunca chegaríamos a parecê-lo».
grandes noites de fds para ti
bj
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