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Antologia (dividida)
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Não te demores - o sol anda a deitar-se sem pudor em todos os telhados, e a luz esmorece e o luto da noite alonga a espera. Eu não me deito sem ti mais nenhum dia. (Maria do Rosário Pedreira)
Mas, Sabes?
(Antonieta Preto)
Nas vielas os homens correm para cá, correm para lá,
pisando a sombra das laranjeiras.
Também os meus pensamentos rodopiam
quando não te vejo.
(Mikata - séc VII- Japão )
Quando não te leio e nessa altura julgo ouvir as palavras fugirem para dentro de ti, deixando o ar com um sabor azedo, viro a página.
Quero o amor encostado a mim, entre o meu peito e as minhas mãos, entre as minhas mãos e as tuas. Como um livro.
(Antonieta Preto)
O poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te
quando sei sem rimas e sem metáforas
que te amo.
(José Luís Peixoto)
E te amarei, mesmo quando já não sejas no meu lugar, porque o teu livro recebeu-me para sempre de páginas abertas e para sempre deu-me páginas inteiras de mundo.
(Antonieta Preto)
Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade - que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo.
(Maria do Rosário Pedreira)
Tu, tu que eras e serás sempre, e és.
(Antonieta Preto)
Tu que adormeces as órbitas,
a forma primaveril e tolerante
do amor, tu que és onde as estrelas
são lentas, as flores acordadas,
o poema em toda a parte e o sangue
e o centro constelar da minha própria casa.
Eu quero uma alma para ti...
uma alma onde possa descansar a minha,
que consinta demorar-me no brilho estranho que só as janelas têm...
(Eduardo White)
Abro o amor de par em par. Hoje posso, hoje quero soletrar o sol e a chuva de nós e dizer o que vejo em mim.
Imaginando, talvez, apenas...
Mas, digo-te: a memória é um brilho nas gotículas das palavras que ainda tenho de ti, mesmo que o tremor tome conta de nós e a caligrafia do vento e das chuvas torrenciais atravesse aquele que foi o nosso repouso onde, sei, expulsarás a noite por inteiro. Gritarás um frio de palavras ou, pior ainda, uma ausência escura, cega, como a escuridão da noite. Conhecerei o medo e a dor do teu escuro, como o medo de uma criança perdida numa casa, só com paredes e telhados de luto.
(Antonieta Preto)
Sei apenas de ti a tua ausência. Sei apenas da noite este vazio.
(Manuel Alberto Valente)
Meu coração morre mais dentro.
Mas quero dizer-te que a noite já é velha para mim, e por isso te falo com a mesma paciência que é esperar o desabrochar de um jardim ou a colheita de um pão.
(Antonieta Preto)
Porque a noite sempre, como o fogo, revela, melhora, pule o tempo...
(Cláudio Rodríguez)
Canto-te noite para que tu definitivamente
existas
Canto o teu nome porque só as coisas cantadas
realmente são e só o nome pronunciado inicia
a mágica corrente
Canto o teu nome como o homem antigo fazia eclodir
o fogo do atrito das pedras
Canto o teu nome como o feiticeiro invoca
a magia do remédio
Canto o teu nome como um animal uiva
de noite
(Ana Hatherly)
Oiço ainda um som que me chama. O teu. Agora sei. Gritos. Bocados de poema em tempestade, arquivados nos teus sentimentos. Agora sei. Gritos de quem se esqueceu de que os anjos existem, de que os sinais andam por dentro dos sonhos e da beleza. Gritos do grito, antigo, sagrado.
(Antonieta Preto)
Sim, eu sei, a beleza não é um fato de cerimónia que se arranca da cruzeta para vestir à noite.
(Alberto Serra)
Mas o nosso amor já se veste de longe. Por isso te digo:
(Antonieta Preto)
Não posso adiar o amor por outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e ande sob montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora imprecisa demore
Não posso adiar para outro século
a minha vida, nem o meu amor
nem o meu grito de libertação,
Não posso adiar o coração.
(António Ramos Rosa)
Não posso ver bocados de amor, infinitos, feitos numa arcada de luz, demorados. Não posso adiar o sonho. Pego nele, acaricio-o e arrumo-o junto à alma - quero protege-lo para que não se acabe. Como os nossos livros. Como o livro que és tu. O nosso sonho tem um sorriso antigo, igual ao da inocência e uma idade igual à minha.
Os nossos corações não morrerão mais dentro porque há escrituras de amor e por isso te peço que lhes abras as palavras e as deites para sempre sobre o teu coração, como se fosse o nosso leito.
(Antonieta Preto)
Nunca te esqueci - é este um amor maior que atravessa a vida
e resiste à cicatriz do tempo.
O que ontem me disseste agora o ouço,
como se nada tivesse interrompido
a magia do instante em que as nossas bocas se aguardavam
na distância de um beijo e o olhar tocava o corpo antes da mão.
(Maria do Rosário Pedreira)
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19 Junho 2006
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