Tactear o transitório. Ser fulguração. Sentir o esgar da revolta, da ironia, do espanto...
- eu sei das vezes que procuras aquele lugar desmedidamente imprevisível,
onde te imponhas à natureza das coisas e faças nascer sonhos no ar, a fingir não os quereres ao teu lado, como eu.
- quero conseguir ouvir-te murmurar o meu nome. e tu, consegues ouvir-me?
- não me deixes partir.
- sempre te segurei na tristeza de não conseguires ver-me. e...
se me trouxesses aquele mar de outrora e eu encontrasse o teu joelho como que por acaso...
renasceriam braços e olhos de encantamento para apertar fraquezas, sentir-te tremer e ver-te dormir. depois dum dedo num canto da minha boca.
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06 Maio 2007
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«É difícil viver contigo e impossível viver sem ti.» «Tens a certeza? E se estivéssemos só a repetir o que nos ensinaram? A viver o amor de que se fazem os livros. Para um livro ser bom, o amor tem de ser mau. E se pudesse não ser assim?» «Achas que é possível que o amor seja bondoso e bom ao mesmo tempo?» «Quando tu dizes bom, eu penso belo; estou programado assim.» «Mas se gostares de mim o suficiente para imaginar que bom e belo podem ser sinónimos, eu respondo-te que o amor pode acordar feio, desgrenhado, assustador, e continuar a ser belo, apesar dessa tristeza.» «O meu amor por ti, às vezes, não é mais do que uma ruína, uma ruína onde estremeço de frio. Mas prefiro estremecer por causa de ti do que procurar outra paisagem.» «Andas a dormir com alguém?» «Já não, encontro-te sempre, até nos corpos das outras me farto de ti, o meu amor por ti é tão banal e absoluto que está em todos os corpos, entendes?» «Perfeitamente. Como é que vamos resolver isto?» «Porque é que temos de resolver isto? Talvez este amor, esta coisa nossa, seja uma guerra como essas que tu estudas, infinitas, com o sangue e a paz entremeados. E páginas em branco.» «Somos os dois muito maus na questão das páginas em branco. Se reparares bem é isso.» «Talvez eu não goste de reparar bem. Acho até que é por isso que preciso de ti; para me irritar contigo porque reparas sempre em tudo o que me escapa.» «Achas que ainda teremos medo de viver juntos daqui a vinte anos?» «Não sei. Sei que nos arrependeremos se não tentarmos. Mas não consigo perder o medo.» «Não tens de perder o medo. O medo faz parte do que somos os dois.» «Nunca te esqueces de mim quando tens prazer com outras pessoas?» «Não, e aí está uma coisa difícil de te perdoar.»
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29 Abril 2007

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.A notícia incensurável
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O espírito
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As coisas nos lugares certos
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O ar agora a cores
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Gritos de ontem à solta
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Os tons certos numa mão de artista
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Os porta-estandartes
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e tudo porque
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Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre
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25 Abril 2007

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"Entre Moscovo, França e Suíça forma-se um triângulo poético-amoroso entre três poetas do século XX: Boris Pasternak, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaieva". As cartas que trocaram durante seis meses em 1926 (sem nunca se conhecerem), editadas em volume, servem agora a Inês de Medeiros para uma encenação teatral em torno de uma partilha de palavras intensamente lírica e arrebatadora. Medeiros é Tsvetaieva, poetisa russa exilada em França; Claúdio da Silva dá corpo a Rilke, checo radicado na Suíça, tomado pela doença; e Amândio Pinheiro interpreta Pasternak, poeta russo animado pela Revolução, a viver em Moscovo. A encenadora reúne em palco os três corpos que na realidade não se chegaram a encontrar, embora acredite que as suas cartas dêem a conhecer "um desejo de amar capaz de anular as distâncias", um amor que era "também exigente, impulsivo e egoísta". E pergunta: "quem se ama, o poeta ou o homem? Quem ama? Quem é amado?", numa tentativa de retomar, 80 anos depois, a vibração daquele fugaz eixo poético que atravessou a Europa.
No CCB, 12 a 15 de Abril - in Agenda LX Abril
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“Eu lia a tua carta a bordo do oceano, e o oceano lia-a comigo” (Tsvétaieva)
“Tu és o meu único céu legítimo e a minha mulher” (Pasternak)
“Como é que nos tocamos? Por golpes de asa” (Rilke)
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Robert Dessaix diz-nos que os triângulos transformam as linhas rectas em espaços.
E diz-nos a Física que a luz se propaga no ar e que tem três grandezas básicas: o brilho (ou amplitude), cor (ou frequência), e polarização (ou ângulo de vibração). Devido à dualidade onda-partícula, a luz exibe simultaneamente propriedades quer de ondas quer de partículas. E que propagando-se em meio homogéneo, a luz percorre sempre trajectórias rectilíneas; somente em meios não-homogéneos é que a luz pode descrever "curva".
Precisamente.
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15 Abril 2007

José Pinto Coelho, fundador e presidente do partido nacionalista, tem agora a companhia de Ricardo Araújo Pereira, Tiago Dores, Miguel Góis e José Diogo Quintela. Os quatro humoristas decidiram parodiar o cartaz do PNR.
Com as mesmas dimensões do vizinho, o outdoor dos Gato Fedorento mostra os rostos dos quatro humoristas, todos com bigode e pêra, numa clara imitação de José Pinto Coelho, além de algumas frases em oposição à mensagem inscrita no cartaz do PNR.
«Mais Imigração. A melhor maneira de chatear os estrangeiros é obrigá-los a viver em Portugal. Com os portugueses não vamos lá. Nacionalismo é parvoíce», é a resposta dos Gato Fedorento à mensagem xenófoba do PNR, na qual pode ler-se «Portugal aos portugueses. Basta de imigração, nacionalismo é solução».
À imagem do avião a afastar-se, com a mensagem «Façam uma boa viagem», a resposta dos «gatos» é o mesmo avião a aterrar e a expressão «Bem-vindos!».
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Dentro deste espaço há alguém que fala. Habitam-no o medo e o fascínio, o pranto e o deslumbramento, o adeus e a solidão. Por estas linhas onde a serenidade e o equilíbrio parecem repousar na noite em fundo, desdobram-se as pontas de um véu lavrado a panteísmo, e na borda das palavras inquietas cresce um quotidiano consentido. Não se pode falar de resignação mas antes de uma certa aceitação dos anos e contingências que eles acarretam. Os prazeres fecundos de um conhecimento onde tropeça o sangue da eterna juventude e se ouve o grito de um outrora-agora.
Corre, no âmago disto tudo, um monólogo onde o outro assiste, impotente, sempre exterior, mesmo quando a partilha o toca. E, apesar disso, o monólogo é quebrado aqui e além e também porque ele responde e comenta, também ele medita em palavras audíveis rompendo o compromisso de uma solidão buscada, a tal ponto que são dele, o outro, as últimas palavras aqui desenhadas a giz.
E há um segredo reduzido a pó. Antecipadamente.
Anotações menos secundárias:
A Primavera irrita-me, com tantas horas de sol que não me servem para nada. Ainda bem que se acabaram estes dias de férias; cansa-me passá-los a perguntar-me, desde há muitos anos, para que é que eu meto férias.
Um filho que não sabe a fórmula de morrer de amor e continuar a viver. E eu que não sei como ensinar que o resultado dela é zero e que isto são contas que só se acertam mais tarde.
Acho que ainda sou uma conversadora nata mas já não suporto ser obrigada a ouvir tudo o que digo.
O mundo em vertiginoso descarrilamento e, nos cafés, lê-se o jornal de perna cruzada.
Ontem sonhei que os meus sonhos tinham falta de mim.
E gostava mais da pessoa que eu era contigo.
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02 Abril 2007
“Acontece na vida de toda a gente. De repente, a porta que se fechou entreabre-se, a grade que se acabou de descer volta a erguer-se, o não definitivo já não é senão um talvez, o mundo transfigura-se, um sangue novo corre-nos nas veias. É a esperança. Pena suspensa. O veredicto de um juiz, de um médico, de um cônsul fica adiado. Uma voz anuncia-nos que nem tudo está perdido. Trémulos, com lágrimas de gratidão nos olhos, passamos para o aposento seguinte, onde nos pedem para esperarmos, antes de nos lançarem no abismo.”
Nina Berberova, Terra de Ninguém
desenha-me um silêncio...outro
silêncio
o que já temos
quando o abismo serve
para aprender a voar
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30 Março 2007
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O amor já não é possível para a maior parte das pessoas
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Amar uma mulher 40 anos sem nunca a ter? Foi o que aconteceu ao russo Ivan Turgueniev. O australiano Robert Dessaix pegou nesse amor de há século e meio para viajar com ele e falar de tudo o que lhe interessa. Dos triãngulos amorosos à Rússia de Putin, aliás, O Grande Inquisidor.
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Por causa do vazio?
Há um vazio e é difícil viver. A pergunta é recorrente: porquê não me matar? Porque, às vezes, a vida é dolorosa. A geração dos meus pais tinha algum tipo de fé. Não era que acreditassem, mas tinham fé. Em inglês é diferente. Para acreditar ["to believe"] é preciso acreditar que alguma coisa é verdade. Creio que os meus pais não acreditavam que Jesus Cristo fosse o Salvador deles, mas tinham fé que de algum modo existe uma presença divina que tomaria conta deles. Mas para nós é difícil. É possível se vivermos no Texas, talvez, mas não se vivermos na Austrália, até em Portugal...
Era uma "ménage à trois? [Turgueniev era amigo do marido de Pauline, Louis]
Não, não há palavras para o que era. Era um triângulo. E eu gosto de triângulos, acho que dão possibilidades, transformam as linhas rectas em espaços.
Ele está no centro do que chama este crepúsculo do amor, quando o amor se torna algo...
...muito difícil. É uma espécie de "énnui" com a vida. A sensação de que a vida é só sofrimento e não tem sentido. De que os seres humanos são estúpidos, cruéis. É o que sinto quando leio os jornais. Nem só George Bush é estúpido, toda a gente é. E há uma espécie de "banalisation" de tudo. E uma vez que a provámos é difícil esquecê-la. Há momentos em que vamos a um concerto maravilhoso, ouvimos uma canção de amor de Cole Porter ou apaixonamo-nos, ou vemos um belo lago ao pôr-do-sol, e esquecemos por cinco minutos.
Mas isso tem a ver com o crepúsculo do amor?
Não é bem a mesma coisa. Se o amor fosse possível claro que poderíamos esquecer este "énnui"...Talvez para mim ainda seja possível, mas para a maior parte das pessoas no Ocidente é impossível. Talvez seja possível na Índia, ou...
Porquê?
Porque não acreditamos na alma.
E por que é que para si ainda é possível?
Porque...como Turgueniev sou uma mistura de romântico e racional. Ainda tenho um lado místico que acredita em presenças reais, e se acreditamos em presenças reais ainda podemos amar. Mas se somos pós-modernistas não há uma presença real. Há apenas uma reacção química. (...) Eu não acredito em presenças reais às três da manhã mas posso acreditar às três da tarde...E amo diferentes pessoas de maneiras diferentes, estou disposto a correr riscos, então, é talvez possível ainda amar.
Turgueniev não era um homem muito sexual.
Ele mesmo o diz. Para ele, como para o "troubador", essa não era a coisa principal, o principal é apaixonar-se.
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Excertos da entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Robert Dessaix
in Ípsilon - 23 março 2007
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Outra entrevista aqui
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28 Março 2007
.........................._________________________________ isto é um silêncio ________________________
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excerto daqui
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26 Março 2007
Se estivesses aqui e eu deitasse o meu pescoço para trás, nesta cadeira do escritório, fechasse os olhos e suspirasse, tu não terias a certeza se eu estaria cansada, quisesse ir buscar imagens de algo de nós lá muito dentro da memória, ou se um bem estar invulgar teria tomado conta de mim.
Se me levantasse de repente e fosse a andar pelo corredor com passos apressados, não adivinharias porque o estaria a fazer ou sequer se era meu costume fazê-lo. Para a sala baixar o som da música porque estava a mais entre mim e a tua voz ou porque me doía a cabeça? Para a cozinha porque tinha a boca seca? Sede ou nervosismo? E saberias o quão raramente eu bebo água?
Se para a mesma sala te levasse e me sentasse no lado esquerdo do sofá de três lugares – o que fica em frente à televisão – não terias a certeza se o fizera porque era um hábito de sempre, porque queria ver bem a notícia que estava a passar no écran ou porque queria deixar espaço ao meu lado para que te sentasses onde querias sem ser preciso ser explícita e assim impedir-te de te sentares num dos outros sofás só de um lugar, inseguro.
Se eu te tocasse no cabelo como saberias que era uma indicação da memória cativa das palavras trocadas «eu, ontem, não falei em cabelos por acaso» «tu nunca dizes nada por acaso, não sei se já reparaste» ou se era uma mania minha mexer no cabelo das outras pessoas?
Se, finalmente, te abraçasse, te beijasse (até onde fosse longe...) e, pelo meio, te dissesse que já sabia o quanto a tua boca era contornável (e tu murmurasses que sim, provavelmente a parte mais contornável de ti) para, de seguida, te encaminhar para a porta de saída, perto da qual tinhas estado tanto tempo, já exangue, não saberias se o faria por, afinal, não ter sentido aquele fogo, quase cinematograficamente, tão falado entre nós, por não saber que fazer com tão pouco espaço entre os dois, ou simplesmente por querer esperar por ti (e pelo resto que ainda seria nosso) para o dia seguinte, por ter percebido que esperar sempre um pouco mais era o que de melhor tu e a vida me podiam dar e o que melhor me sabia. O sempre em lugar do já. Para sempre.
E mais ses. E os teus ses. E o tempo que já não me autoriza incertezas
Olha o cigarro que, no cinzeiro, se apaga sem chegar ao fim. Outros ardiam até àquele cheiro de papel queimado. Tinha existido um tempo em que a seduziam as evidências dos mistérios.
Cansada, larga a noite já sem rituais. Mais uns passos até à cama - lenitiva. Onde, pouco a pouco, a certeza de não fazer qualquer sentido um encontro entre eles adormece com ela.
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19 Março 2007
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Não se sabe para onde virar os olhos quando só a angústia é pura. A cama às mãos atada. Uma laranja sobre o tabuleiro da cozinha quase desequilibra uma paisagem. Nos quartos interditos as mãos vão encerradas nos bolsos. A beleza é um perigo, algo nefasto que conduz ao delírio . Tudo o que está a mais dói. Sobretudo dói o doer da navalha. Chegar e não encontrar nada. Unicamente as coisas nos lugares exactos. Não há um sopro dentro da casa. Há uma coisa que se perdeu por descuido. Não vale de nada correr para nenhum lado. Entretanto o medo atravessa lentamente a sala. No meio o interior de tudo. À contra luz a pele fica anulada, projecta sombras, no branco das paredes. As paredes suspendem esta casa como a cabeça agarra um corpo. Um truque de mágica.
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Ficar por aqui eternamente mudo, é um destino. O mar bate muito ao longe. Todas as coisas foram feitas para serem desmembradas e depois reconstruídas. Entra aqui o artista com as suas mãos de prata. De natural tudo nos falta. Uma máquina empina-se e larga uivos. O artificial é um logro, um produto imaginativo. Somos feitos de um pó que deixou de ser feito. Entretanto perdeu-se a palavra. Isto assim. Mais vale escapar para o lugar onde não seremos vistos. A traição que nos agarra pelas costas. A alegria breve. O que ficou por dizer. Os dias felizes. Isto assim.
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Pedro Paixão
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15 Março 2007
- Let's quê?
- É duma canção do Bowie.
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Há muitos anos que andava a bater-me no peito, sozinha. Dizia-me que tinha ficado ali porque eu podia guardá-la até a entregar sem medo.
E eu, que não tinha medo de nada nem sabia que o havia de ter, deslizava entre outros sons.
Enquanto isso - às vezes em situações muito estranhas como quando uma onda enorme me enrolou e depois duma eternidade feita de murmúrios ascentrais me devolveu à terra - lá vinha ela: «You're too old to lose it, too young to choose it » ou «All the knives seem to lacerate your brain »...
Eu pensava que me agarrava porque eu queria senti-la e, com ela, o fim da minha adolescência. Que o que dizia era apenas mais uma voz dentro da minha cabeça. E, afinal, era para não me esquecer que, um dia, tu ias chegar, que era de ti que ela estava à espera em mim, e que era a ti que eu tinha de a entregar.
(Done)
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10 Março 2007
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Pontos nos ii, sabedoria básica ou não batas mais no ceguinho
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A existência da vontade no fazer mal é matéria muito elástica, eu sei. Mas isso também coloca a existência da vontade no fazer bem no mesmo patamar.
Picture:
Se gostares de mim, se me ajudares e acompanhares no que e quando eu precisar, mas mesmo assim como mais ninguém faz por mim, eu digo-te, depois de me levares a viver mais uma noite: Bye, desculpa lá a pressa. Sim, foi uma noite agradável. Gostei do filme e daquele barzito. A malta vê-se amanhã porque tenho ali uns cortinados novos para pendurar. Talvez ainda dê tempo para me levares às compras. Amanhã ainda terás o braço ao peito? E, a propósito, isso foi do quê? Ias começar a explicar quando tive de atender a chamada da Alice que estava em prantos por causa do Blue. Era um caniche tão querido, coitada. (...) Hã? Outra vez. Sim, sei que não foi por quereres que não reparaste que eu estava a responder aqui a uma SMS. Deixa lá, contas amanhã, se der...
Or, by another hand:
Se me ferires, ok, sem querer, que tu até podes pertencer à categoria dos que acertam sempre na nuvem em vez do prato - e isso só porque o mundo é imperfeito e não deviam estar aquelas nuvens estúpidas, no horizonte, quando estás a praticar desporto - eu fico triste mas tudo cool na mesma, tás a ver? Eu compreendo. Nem me lembro das vezes que isso aconteceu. De todas as vezes em que precisei de ti ou te quis, e tu nem sabias se eu ainda existia. E passou sempre, não? Ora bem, se fosse de propósito não era nada assim, mas como é sem querer...podemos repetir, amanhã, a noite de hoje? Eu compro mais velas e pétalas de rosa e faço o teu cocktail favorito. Que achas? Não podes? Então prometes que me ligas em breve? Não, não me aborreço contigo, claro que não, não tens culpa nenhuma. Tu até gostas de mim...
Se não há um querer adjacente ao acto de fazer mal, também pode não haver querer adjacente ao acto de fazer bem. E serem, ambas as coisas, passíveis do mesmo tratamento por parte do objecto desse querer - ou não - fazer. Até porque o objecto pode bem ter reacções que não são bem por querer. Entregas absolutas ou coisas do só quando e como calha...
(Coloquem os géneros a gosto: m, f ou nem por isso, muito pelo contrário.)
.09 Março 2007
Testemunho de essências indecentes
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