Tactear o transitório. Ser fulguração. Sentir o esgar da revolta, da ironia, do espanto...

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bandida said...
desenha-me um silêncio...outro
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silêncio

o que já temos

quando o abismo serve

para aprender a voar

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30 Março 2007

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Robert através de Turgueniev

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O amor já não é possível para a maior parte das pessoas

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Amar uma mulher 40 anos sem nunca a ter? Foi o que aconteceu ao russo Ivan Turgueniev. O australiano Robert Dessaix pegou nesse amor de há século e meio para viajar com ele e falar de tudo o que lhe interessa. Dos triãngulos amorosos à Rússia de Putin, aliás, O Grande Inquisidor.


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(...)
Por causa do vazio?
Há um vazio e é difícil viver. A pergunta é recorrente: porquê não me matar? Porque, às vezes, a vida é dolorosa. A geração dos meus pais tinha algum tipo de fé. Não era que acreditassem, mas tinham fé. Em inglês é diferente. Para acreditar ["to believe"] é preciso acreditar que alguma coisa é verdade. Creio que os meus pais não acreditavam que Jesus Cristo fosse o Salvador deles, mas tinham fé que de algum modo existe uma presença divina que tomaria conta deles. Mas para nós é difícil. É possível se vivermos no Texas, talvez, mas não se vivermos na Austrália, até em Portugal...

Era uma "ménage à trois? [Turgueniev era amigo do marido de Pauline, Louis]
Não, não há palavras para o que era. Era um triângulo. E eu gosto de triângulos, acho que dão possibilidades, transformam as linhas rectas em espaços.

Ele está no centro do que chama este crepúsculo do amor, quando o amor se torna algo...
...muito difícil. É uma espécie de "énnui" com a vida. A sensação de que a vida é só sofrimento e não tem sentido. De que os seres humanos são estúpidos, cruéis. É o que sinto quando leio os jornais. Nem só George Bush é estúpido, toda a gente é. E há uma espécie de "banalisation" de tudo. E uma vez que a provámos é difícil esquecê-la. Há momentos em que vamos a um concerto maravilhoso, ouvimos uma canção de amor de Cole Porter ou apaixonamo-nos, ou vemos um belo lago ao pôr-do-sol, e esquecemos por cinco minutos.

Mas isso tem a ver com o crepúsculo do amor?
Não é bem a mesma coisa. Se o amor fosse possível claro que poderíamos esquecer este "énnui"...Talvez para mim ainda seja possível, mas para a maior parte das pessoas no Ocidente é impossível. Talvez seja possível na Índia, ou...

Porquê?
Porque não acreditamos na alma.

E por que é que para si ainda é possível?
Porque...como Turgueniev sou uma mistura de romântico e racional. Ainda tenho um lado místico que acredita em presenças reais, e se acreditamos em presenças reais ainda podemos amar. Mas se somos pós-modernistas não há uma presença real. Há apenas uma reacção química. (...) Eu não acredito em presenças reais às três da manhã mas posso acreditar às três da tarde...E amo diferentes pessoas de maneiras diferentes, estou disposto a correr riscos, então, é talvez possível ainda amar.

Turgueniev não era um homem muito sexual.
Ele mesmo o diz. Para ele, como para o "troubador", essa não era a coisa principal, o principal é apaixonar-se.
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Excertos da entrevista de Alexandra Lucas Coelho a Robert Dessaix
in Ípsilon - 23 março 2007
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Outra entrevista aqui
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28 Março 2007

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.....................................- se quiseres, sublinhado, se quiseres...
.....................................- eu quero. e tu queres?
.....................................- eu...tu sabes.
.....................................- não sei se sei. mas reformulo a pergunta: tu queres mesmo...e muito?
.....................................- ...
.....................................- diz.
.....................................- quero.
.....................................- e...?
.....................................- mesmo.
.....................................- e...?
.....................................- muito.

........................._________________________________ isto é um silêncio ________________________
......................_________________________________ que não sei desenhar _______________________
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26 Março 2007

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Or like Narcisus


Gosto da ideia romântica de que as pessoas que não conseguem amar afinal têm é um grande amor infeliz e secreto para expiar. E que em cada corpo novo, cada paixão instantânea, querem desesperadamente lavar - ou renovar? - a lembrança do que não esquecem.
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excerto daqui
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26 Março 2007

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When Nan meet Lavinia
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One can only half-love something
the other half is us

and

even so
so much happens that is
contradictory

that

I don't know that those halves
(either one)
exists.

Let me open you
for my daily dose
My half-tear.

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23 Março 2007


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De tempo e de perda

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Noite desigual. Pensamentos antes improváveis. Uma tempestade a varrer as cores duma vida a que só por medo se agarra.
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Se estivesses aqui e eu deitasse o meu pescoço para trás, nesta cadeira do escritório, fechasse os olhos e suspirasse, tu não terias a certeza se eu estaria cansada, quisesse ir buscar imagens de algo de nós lá muito dentro da memória, ou se um bem estar invulgar teria tomado conta de mim.

Se me levantasse de repente e fosse a andar pelo corredor com passos apressados, não adivinharias porque o estaria a fazer ou sequer se era meu costume fazê-lo. Para a sala baixar o som da música porque estava a mais entre mim e a tua voz ou porque me doía a cabeça? Para a cozinha porque tinha a boca seca? Sede ou nervosismo? E saberias o quão raramente eu bebo água?
Se para a mesma sala te levasse e me sentasse no lado esquerdo do sofá de três lugares – o que fica em frente à televisão – não terias a certeza se o fizera porque era um hábito de sempre, porque queria ver bem a notícia que estava a passar no écran ou porque queria deixar espaço ao meu lado para que te sentasses onde querias sem ser preciso ser explícita e assim impedir-te de te sentares num dos outros sofás só de um lugar, inseguro.
Se eu te tocasse no cabelo como saberias que era uma indicação da memória cativa das palavras trocadas «eu, ontem, não falei em cabelos por acaso» «tu nunca dizes nada por acaso, não sei se já reparaste» ou se era uma mania minha mexer no cabelo das outras pessoas?
Se, finalmente, te abraçasse, te beijasse (até onde fosse longe...) e, pelo meio, te dissesse que já sabia o quanto a tua boca era contornável (e tu murmurasses que sim, provavelmente a parte mais contornável de ti) para, de seguida, te encaminhar para a porta de saída, perto da qual tinhas estado tanto tempo, já exangue, não saberias se o faria por, afinal, não ter sentido aquele fogo, quase cinematograficamente, tão falado entre nós, por não saber que fazer com tão pouco espaço entre os dois, ou simplesmente por querer esperar por ti (e pelo resto que ainda seria nosso) para o dia seguinte, por ter percebido que esperar sempre um pouco mais era o que de melhor tu e a vida m
e podiam dar e o que melhor me sabia. O sempre em lugar do já. Para sempre.

E mais ses. E os teus ses. E o tempo que já não me autoriza incertezas

Olha o cigarro que, no cinzeiro, se apaga sem chegar ao fim. Outros ardiam até àquele cheiro de papel queimado. Tinha existido um tempo em que a seduziam as evidências dos mistérios.
Cansada, larga a noite já sem rituais. Mais uns passos até à cama - lenitiva. Onde, pouco a pouco, a certeza de não fazer qualquer sentido um encontro entre eles adormece com ela.

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19 Março 2007

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Antony & The Johnsons
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If It Be Your Will (Leonard Cohen)

(speechless...)

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15 Março 2007

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Isto assim
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Era assim que se sabia. Não a escrever. Nem a pensar nisso. O círculo estava fechado. Não havia como entrar. O dia seguinte anunciou a passagem. Do que foi para o que se seguiria. Uma linha a tracejado.
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Não se sabe para onde virar os olhos quando só a angústia é pura. A cama às mãos atada. Uma laranja sobre o tabuleiro da cozinha quase desequilibra uma paisagem. Nos quartos interditos as mãos vão encerradas nos bolsos. A beleza é um perigo, algo nefasto que conduz ao delírio . Tudo o que está a mais dói. Sobretudo dói o doer da navalha. Chegar e não encontrar nada. Unicamente as coisas nos lugares exactos. Não há um sopro dentro da casa. Há uma coisa que se perdeu por descuido. Não vale de nada correr para nenhum lado. Entretanto o medo atravessa lentamente a sala. No meio o interior de tudo. À contra luz a pele fica anulada, projecta sombras, no branco das paredes. As paredes suspendem esta casa como a cabeça agarra um corpo. Um truque de mágica.
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Ficar por aqui eternamente mudo, é um destino. O mar bate muito ao longe. Todas as coisas foram feitas para serem desmembradas e depois reconstruídas. Entra aqui o artista com as suas mãos de prata. De natural tudo nos falta. Uma máquina empina-se e larga uivos. O artificial é um logro, um produto imaginativo. Somos feitos de um pó que deixou de ser feito. Entretanto perdeu-se a palavra. Isto assim. Mais vale escapar para o lugar onde não seremos vistos. A traição que nos agarra pelas costas. A alegria breve. O que ficou por dizer. Os dias felizes. Isto assim.
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Pedro Paixão
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15 Março 2007

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Abro-te cuidadosamente todos os dias
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para me dares uma lágrima tua a beber

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12 Março 2007

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Topic: Let's turn on and be
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- Let's quê?
- É duma canção do Bowie.

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Há muitos anos que andava a bater-me no peito, sozinha. Dizia-me que tinha ficado ali porque eu podia guardá-la até a entregar sem medo.
E eu, que não tinha medo de nada nem sabia que o havia de ter, deslizava entre outros sons.
Enquanto isso - às vezes em situações muito estranhas como quando uma onda enorme me enrolou e depois duma eternidade feita de murmúrios ascentrais me devolveu à terra - lá vinha ela: «You're too old to lose it, too young to choose it » ou «All the knives seem to lacerate your brain »...
Eu pensava que me agarrava porque eu queria senti-la e, com ela, o fim da minha adolescência. Que o que dizia era apenas mais uma voz dentro da minha cabeça. E, afinal, era para não me esquecer que, um dia, tu ias chegar, que era de ti que ela estava à espera em mim, e que era a ti que eu tinha de a entregar.

(Done)

-

10 Março 2007

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Pontos nos ii, sabedoria básica ou não batas mais no ceguinho

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A existência da vontade no fazer mal é matéria muito elástica, eu sei. Mas isso também coloca a existência da vontade no fazer bem no mesmo patamar.



Picture:


Se gostares de mim, se me ajudares e acompanhares no que e quando eu precisar, mas mesmo assim como mais ninguém faz por mim, eu digo-te, depois de me levares a viver mais uma noite: Bye, desculpa lá a pressa. Sim, foi uma noite agradável. Gostei do filme e daquele barzito. A malta vê-se amanhã porque tenho ali uns cortinados novos para pendurar. Talvez ainda dê tempo para me levares às compras. Amanhã ainda terás o braço ao peito? E, a propósito, isso foi do quê? Ias começar a explicar quando tive de atender a chamada da Alice que estava em prantos por causa do Blue. Era um caniche tão querido, coitada. (...) Hã? Outra vez. Sim, sei que não foi por quereres que não reparaste que eu estava a responder aqui a uma SMS. Deixa lá, contas amanhã, se der...



Or, by another hand:


Se me ferires, ok, sem querer, que tu até podes pertencer à categoria dos que acertam sempre na nuvem em vez do prato - e isso só porque o mundo é imperfeito e não deviam estar aquelas nuvens estúpidas, no horizonte, quando estás a praticar desporto - eu fico triste mas tudo cool na mesma, tás a ver? Eu compreendo. Nem me lembro das vezes que isso aconteceu. De todas as vezes em que precisei de ti ou te quis, e tu nem sabias se eu ainda existia. E passou sempre, não? Ora bem, se fosse de propósito não era nada assim, mas como é sem querer...podemos repetir, amanhã, a noite de hoje? Eu compro mais velas e pétalas de rosa e faço o teu cocktail favorito. Que achas? Não podes? Então prometes que me ligas em breve? Não, não me aborreço contigo, claro que não, não tens culpa nenhuma. Tu até gostas de mim...



Se não há um querer adjacente ao acto de fazer mal, também pode não haver querer adjacente ao acto de fazer bem. E serem, ambas as coisas, passíveis do mesmo tratamento por parte do objecto desse querer - ou não - fazer. Até porque o objecto pode bem ter reacções que não são bem por querer. Entregas absolutas ou coisas do só quando e como calha...

(Coloquem os géneros a gosto: m, f ou nem por isso, muito pelo contrário.)

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09 Março 2007

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Espaço com poetas do lado de lá II
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Testemunho de essências indecentes
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Eu tenho vontades
Tenho um desejo ou dois
Intenções, projetos e insatisfações
Nunca soube o que deveria ser
Na falta de uma definição: sou
Procurei por respostas
As mais importantes foram:
bom dia - boa tarde - chega aí
Recebi ordens: nem todas cumpri
Nenhuma delas me definiu
Joguei muita migalha no chão
Varri sujeira pra trás da porta
Fechei portas de armários bagunçados
Nunca fui consenso
De tudo que pedi, quase nada recebi
E o que me deram foi vital:
Beijos, abraços, carinho e companhia
Não tenho a deus e nem ele a mim
Não vivo no inferno e não sou diabólico
Não fui julgado, não pretendo julgar
Meu juízo, pela média, é insano
Poder eu posso, talvez...
Divertido pensar que sou evoluído
Triste pensar que é mentira
Depois da tristeza? A realidade
Guardo a certeza da mutação
E sua irreversibilidade
Não quero a morte
Muitas batalhas já foram travadas
Já senti o seu cheiro e não gostei
É monótono, monocórdio, definido
A vida é polissêmica, dinâmica
Os cheiros, os gostos e as cores variam
A vida dói imprevisível e indefinidamente
E eu sigo pelas esquinas que passam
Se isso tudo faz sentido ainda estou vivo.
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05 Março 2007

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Espaço com poetas do lado de lá I
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Coffeeshop
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O casal ao lado discute os termos do divórcio.
Dois pares de pernas desencontrados. Ela prossegue
com tom de executiva. Ele se queixa,
manhoso. Diz que a vida assim está:
intransitável. Ela pede que ele assine
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aqui, aqui e aqui.
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Uma neve ligeira paira, hesita sobre a rua, logo
se resolve e polvilha o cinza.
As costuras da calçada vão sumindo.
Coisas etéreas pousando num mar de concreto,
abafando as miudezas da vida.
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Aqui vejo que a cidade na verdade é três:
a primeira, horizontal, das calçadas,
das praças e dos divórcios.
A segunda, vertical, dos arranha-céus
e dos cânions de ar que se alojam entre os prédios.
E a última, horizontal, das coberturas e
terraços, cada um sob sua caixa d’água,
sentinela gorda em tripé com chapéu chinês.
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Eu pairo sobre meu livro entreaberto,
e revoluções me eludem.
Para compreensão geral do mundo, assine
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aqui, aqui e aqui.
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Vitrine
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Você vem à minha casa—
Eu cozinho macarrão—
Você me retorce as vísceras—
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Eu tenho a boca afiada, é
e os olhos moles, sou puro mel
e cal viva. Abre a boca e engole.
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Cheiro a tua frieza pétrea—
Chega mais: você já viu de perto
um coração remendado—
um bule vermelho e roliço
estilhaçado e recomposto?
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Superbonder é demais.
Vá pro inferno.
Eu tenho fome e vou jantar sozinha.
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05 Março 2007

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Final cuts
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Quem eu amei feriu-me sempre da mesma maneira: sem querer.
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01 Março 2007

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Texto para a génese do eros frenético
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Dantes eu era um escritor tão ingénuo que quando queria dizer porta escrevia a palavra porta. Felizmente com o decorrer do tempo tornei-me um escritor avisado e hoje quando quero dizer porta escrevo o gato mia.
Essa é a génese do eros frenético.
O que quero dizer é que o equívoco foi sempre o contrário da polifonia, isto é, que o prazer é uma perversão, uma deturpação do sofrimento. Porque eu nunca digo o que quero. Sou uma outra espécie de licencioso: como não digo o que quero, digo o que não quero.
Essa é a génese do eros frenético.
(...)
Estou sempre a andar. Tenho essa erótica. Bato à porta dos meus amigos e pergunto: diga-me por favor se está aí o meu ombro esquecido. Ao que eles respondem: esta pequena está cada vez menos espirituosa. Isso delicia-me. Tenho essa frenesia. Sento-me à secretária e trabalho na detergência morosa, minha obra-prima.
Sou como o/a filósof o/a celerad o/a.
Essa é a génese do eros frenético.
Mas isso foi há milhões de palavras. Agora produzo pensamento em palavras por segundo.
O que acontece entre nós é o não-acontecimento até à absurdidade. Às vezes penso que é fascinante viver num ambiente assim inconcebível. Mas na verdade gostaria de poder fazer qualquer coisa de radical uma detergência profunda ontológica a isto.
Porque do que todos gostam é do poeta que diz «a tua boca é um sorvete de morangos» ou «dos lupanares saem os devassos».
Que fazer perante as flâmulas do optimismo pueril desses devaneios de satírico e petroleiro (sic) ? De facto a filosofia não nos descortina bons augúrios na vida. Resta-nos apenas o raciocínio calmo e suspicaz.
Essa é a génese do eros frenético.
A zombaria é evidente mas exprime a verdade. Sou apologista das sátiras dicacíssimas.
Mas nunca exagero. O máximo que digo é: não façam isso à vaca.
Sou portuguesa e o meu estilo é barroco. O barroco é um estilo ornamental oriundo no desgaste (é daí que vem a minha tese da detergência) ou na atribulada escrituração da ostra. Tanto é o estilo objecto para escrita e pináculo da coluna vertebral uma cadeia de causalidades concatenadas produto de uma natureza transbordante. É por isso que o português se exprime na oportunidade do super-mercado.
Ainda há dias ouvi dizer a alguém: o que me vale é as coisas que eu não sei. E assim dizendo encolhia os apotécios. Não basta que as coisas sejam verdadeiras também é preciso que sejam verídicas. Já Apolónio o Filomuso autor da Balança Intelectual criticava o Fulano Indiferente.
Mas eu não posso preocupar-me com tais trivia. Quando se atinge o nível da gargalhada reprimida começa a grande sabedoria.
Essa é a génese do eros frenético.
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Ana Hatherly - um calculador de improbabilidades
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Não consigo abstrair-me destas coisas nem da problemática das vírgulas, nem mesmo enquanto vejo a cerimónia da entrega dos Óscares de Hollywood e reparo que o Leo merecia ganhar o eros, digo, o óscar.
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26 fevereiro 2007

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20 anos depois
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...vive dentro de nós.

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Coliseu dos Recreios. Palavras ditas, entre canções, no seu último espectáculo, em 1983.
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Introdução ao Natal dos Simples:
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Não sei se vou conseguir cantar isto sozinho (...)
Então, com a vossa ajuda, aqueles que se lembram ainda daquelas sessões do Barreiro, Alhos Vedros, Setúbal...
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aos Vampiros:
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(...)Estamos à espera do Júlio para associar as novas gerações aos Vampiros. Onde é que estão as novas gerações? Estão a curtir uma de quê?
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à A Morte Saíu à Rua:
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Embora esta canção tenha sido dedicada ao pintor Dias Coelho, eu dedico-a a um grande amigo já desaparecido que foi o Adriano Correia de Oliveira.
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à Papuça:
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Entre os que foram colaborando comigo nestas andanças, conta-se um velho amigo - estão mais na sala; está, por exemplo, ali o José Luís Iglésias, um sujeito que me acompanhou pelas aldeias e depois dedicava-se também ao artesanato. Chegámos a fazer uma exposição em Paris com o artesanato de várias regiões e várias peças de louça que se partiram, aliás, pelo caminho. Foi uma fase interessante do PREC, do nunca desmentido PREC, do assumido, sempre assumido PREC - é o Fausto. Já agora chamo-vos a atenção para um disco importante que ele fez e que se chama "Por Este Rio Acima" e, já agora, também o disco do Luís Cília. E há outros discos que estão para sair: está ali o Vitorino, está ali o Sérgio Godinho...todos eles estão para fazer discos.
O que está neste disco é um pouco diferente mas eu agora permiti-me alterar o estribilho. E as pessoas que quiserem podem cantar de outra maneira. Há as versões que se quiserem. É isto que se chama criatividade! Bem, isto é que se chama um bom alibi: criatividade.
É uma cantiga nova que se chama "Papuça" e que começa assim: "Olha, enfia a carapuça...". Mais ou menos uma evocação, na fase de rescaldo, ou da recessão, do que foi essa época maravilhosa em que para se ser cidadão era necessário mais alguma coisa do que meter um voto numa urna. Da participação directa. Uma época em que o povo era efectivamente ou estava efectivamente a ser um sujeito da História.
Recordo experiências extraordinárias, vividas com o Francisco Fanhais, com o Vitorino e tantos outros companheiros, por essas aldeias fora, em terras em que a população se juntava para resolver o problema da escola, para calcetar as ruas, para resolver directamente o problema da higiene. Era isso, esse ABC da política, que constítuiu esse período maravilhoso que foi o PREC.
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à Vila Morena, tendo já em palco - quase desde o princípio do espectáculo a ajudá-lo - amigos como Fausto, Júlio Pereira, Janita, Serginho, Guilherme Inês, Rui Júnior e Rui Castro:
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Bem, como é nosso hábito, vamos cantar aquela novíssima canção, retrocedendo, chamada "Vila Morena". Já agora, todo o pessoal que quiser - não sei se isto costuma ser clássico ou se é permitido ou se não é permitido - quem quiser vir para aqui cantar com a gente, para dar um ar...
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(Última palavra em palco: ar)
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E foram muitos: Eugénia Mello e Castro, Vasco Lourenço, Maria de Lurdes Pintassilgo, Vitorino...e muita gente anónima, todos abraçados a cantarem o que já se tinha tornado o hino duma linda revolução que, quer os outros tivessem querido, quer não, tinha acontecido nas horas duma madrugada de Abril e que se tinha perfumado, dia adentro, de cravos vermelhos, não de sangue.
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À tua voz única, Zeca.
À tua dádiva sem alinhamentos oportunistas.
Ao teu sorriso tão bonito.
À tua nobreza.
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23 Fevereiro 2007

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Eu, Letras de Babel, no meu 2º aniversário
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quero brindar com todos vocês.

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"Trata-se de uma história inacabada porque lhe falta a resposta. Resposta esta eu espero que alguém no mundo me dê. É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. Amém para todos nós!"

Clarice Lispector

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19 Fevereiro 2007

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Once or twice upon a time...
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- Não te rias.
- Cumplicidades. Gosto de te ver a deslizar assim.
- Vamos almoçar. Assim desfaleço e caio-te aos pés.
- Eu seguro-te.
- Mas eu deixo de te sentir.
- Um dia serei eu. Deixas-me cair?
- Quero cair contigo.
- Não me acordes.
- Quando estiveres a dormir eu escondo-me dentro da tua cabeça.
- E matas-me, já sei.
- Morreste no dia em que te conheci.
- Não te percebo. Mas gosto quando me secas as costas e te esqueces da toalha.


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19 Fevereiro 2007

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Happyness
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Portuguese way

American way
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15 Fevereiro 2007

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De sabores e afectos
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Há dias que não gostamos de ver chegar ao fim sem nada que perturbe a submersa apatia dos outros mas em que nem olhamos para as horas, naquele hábito de as saber quietas. Mas depois um toque de telemóvel rompe o silêncio e cumpre o desejo.
O resto são pormenores: bateria de um que fraqueja, saldo de outro que se acaba, procura de um outro, ainda, que continua um tic-tac que sabe bem, acompanhado de ervas aromáticas por plantar.
E, num instante, um dia já é outro dia.

Este post é para ti, com o sorriso que ainda temos, que trouxeste contigo, ontem, para me oferecer.

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14 Fevereiro 2007

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Esta é que é a verdadeira ave-do-paraíso
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Leda-Miguel Ângelo
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11 Fevereiro 2006

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Noivado
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Estendeu os braços carinhosamente e avançou, de mãos abertas e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu de terem muitos meninos e não serem felizes.
É o que faz a miopia.

Mário Henrique Leiria

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11 Fevereiro 2006

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Nick Cave - Into my arms
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09 Fevereiro 2007

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Há mais de uma hora a querer dar título a isto. Como se fossemos título de alguma coisa.
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Às tantas horas duma noite qualquer dum ano talvez igual a este no meio de um sem número de coisas escritas para ti e para mim de um fôlego mais ou menos assim...
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"Não sei há quantos anos dormia. A casa parecia-me infernal. Não havia música. Não havia poesia. Entretinha os dias a sobreviver. O corpo sabia das fraquezas da alma com a sabedoria dum autómato. Ninguém chegava com aquela vontade de amar junto. Procurava por palavras mas elas não surgiam. Não havia ninguém, em casas mais cheias que a de hoje. Tinha sonhos calados, cheios da sinceridade de quem espera e não encontra. A música entrava em mim, mas ninguém fechava os olhos para a ouvir."

E um dia chegaste. Deslumbrante na forma de seres como eu. Anjos que nunca tiveram um altar. E nunca te senti a passar por outros corpos. Era o tempo em que tinha a certeza de que só desejavas o meu. Em que tinha a certeza de te encher os dias e as noites. De te queimar.

Não foi a ausência que te levou. Nem o silêncio. Nem a distância ou o que um dia foi impossibilidade. Nunca saberás o que foi, apesar de também me confundir por ser tão pouco face ao resto que ignorei.

Que importa? Perdemo-nos para sempre. E por muito que pudesse dizer-te, seria sempre pouco para saberes o que fiz para te poder encontrar.

Hoje, se me serve para alguma coisa, resta-me saber que, nem que minta aos olhos de todos (e aos teus olhos, aos teus olhos), sou outra desde que te conheci ou imaginei conhecer-te.

E este hábito de te escrever, quer leias ou não, será sempre uma estranha mistura de febre e exorcismo. Uma estranha mistura de lábios quentes e mãos firmemente fechadas. Lábios que nunca te beijarão e mãos que nunca responderão ao teu adeus.
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07 Fevereiro 2007

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A gate leading to nowhere
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...is a gate.

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06 Fevereiro 2007

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O que vale (?) é que é mais pequeno que os outros
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Em Fevereiro os dias são tão grandes. Parecem nunca mais acabar.
Onde tantos fins tiveram parte. Daqueles que, mais uns que outros, me disseram algo.
Se pudesse, hibernava. Mas apenas posso procurar o sono para atordoar a mente. Onde calo o gelo imposto nas palavras.
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Acontece o Carnaval - folguedos que, desde sempre, detestei.
Aconteceu a descoberta (adiada) de que a hipocrisia e maldade gratuitas existem.
Faz anos que morreu Zeca Afonso - e me chuvia na cara e na alma, no funeral.
Faz anos que morreu a minha mãe - e que senti que começava eu a ir, enquanto me arrancavam da cara dela mas não do que de mim lá ficou.
E faço eu anos de vida.
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06 Fevereiro 2007

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faltas (e tu também)
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custa-me não ter uma fotografia tua
e só te poder contemplar
na marca que deixaste na minha perna
e no meu lençol

um dia destes vou aí
e fixo-te em papel
nesse sorriso daquele actor de cinema
de quem já gastei os filmes de tanto ver

depois já te posso morder
e queimar-te também
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04 Janeiro 2007

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A raposa e o príncipezinho
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- Não posso ir brincar contigo - disse a raposa. - Não estou presa...
(...)
- O que é que «estar preso» quer dizer?
- É uma coisa que toda a gente se esqueceu - disse a raposa. - Quer dizer que se está ligado a alguém, que se criaram laços com alguém.
- Laços?
- Sim, laços - disse a raposa. - Ora vê: por enquanto, para mim, tu não és senão um rapazinho perfeitamente igual a outros cem mil rapazinhos. E eu não preciso de ti. E tu também não precisas de mim. Por enquanto, para ti, eu não sou senão uma raposa igual a outras cem mil raposas. Mas, se tu me prenderes a ti, passamos a precisar um do outro. Passas a ser único no mundo para mim. E, para ti, eu também passo a ser única no mundo...
- Parece-me que estou a começar a perceber - disse o principezinho. - Sabes, há uma certa flor... tenho a impressão que estou preso a ela...
- É bem possível - disse a raposa. - Vê-se cada coisa cá na terra...
(...)
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu caço galinhas e os homens caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros. Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas, se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de Sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois, olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti, vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo...
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor... prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós - disse a raposa. - Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada. Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
- E o que é que é preciso fazer? - perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei. Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais.
(...)
Foi assim que o pricipezinho prendeu a si a raposa. E quando chegou a hora da despedida:
- Ai! - exclamou a raposa - Ai que me vou pôr a chorar...
- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim...
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou - disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! - disse a raposa. - Por causa da cor do trigo...
- Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
(...)
- Adeus...
- Adeus - disse a raposa. - Vou-te contar o tal segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos...
- O essencial é invisível para os olhos - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já se esqueceram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que está preso a ti. Tu és responsável pela tua rosa...
- Sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.

in Le Petit Prince - Antoine de Saint-Exupéry
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04 Fevereiro 2007

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Chains
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sufoca-me isto de estar aqui, um só corpo para cada passado

que são todo o meu presente e futuro

na falta de equilibrio quase perco a razão

acalmo para a quase morte que é o sono
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onde abraço a tua falta
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e a tua
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e a tua
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e

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03 Fevereiro 2007

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