Tactear o transitório. Ser fulguração. Sentir o esgar da revolta, da ironia, do espanto...

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Homenagem ( com o amor e luto da tua vida )
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Frida Kahlo - O melhor site, com um flash movie notável

e ainda
aqui e aqui
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A coluna partida, 1944







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o sofrimento em tela
como na carne
como a sonoridade do teu nome
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As duas Fridas, 1939









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e o ter asas brancas
e o saber-se
completa
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Diego in my mind









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A força de esperar
por um anel
para morrer
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tenho tanto medo de te falar
como de me pensar

mas tu sabes o que te queria dizer

Frida
gostava de ter pensamento e tempo
no fim
para escrever,
como tu

"Espero alegremente a saída
- e espero nunca mais voltar."

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24 Maio 2006

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1º dia de escola
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com a algazarra normal dos primeiros dias...
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23 Maio 2006

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Já cheira mal
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Há anos que nos andam a vender esta guerra contra o terrorismo. Continua a não comprar. Continua a resistir.
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23 Maio 2006

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Não digam que não vos avisei
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22 Maio 2006

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Sim, Leonardo, basicamente é isso
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Poetry is just the evidence of life. If your life is burning well, poetry is just the ash.
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Leonard Cohen
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22 Maio 2006

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Para o caminho
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Quando se vai numa estrada e se vê um carro seguir a indicação "Rota dos vinhos verdes", não quer dizer que seja esse o seu destino. Pode ser apenas a direcção a tomar.
O lugar é outra coisa.

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21 Maio 2006

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Fado
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21 Maio 2006

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Buenos Aires - A cidade dos livros
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Umberto Eco encontrou a inspiração para escrever O Nome da Rosa a partir duns manuscritos dum monge beneditino alemão que narrava uma perturbante aventura vivida na abadia por volta de 1327, encontrados quando vasculhava nas bancas dum pequeno alfarrabista em Corrientes.

Um alfarrabista, em Lavalle, desencantou debaixo dum amontoado de livros envoltos em poeira, um volume que o livreiro avaliou por cem pesos. Depois de regatear um pouco, o comprador paga oitenta e sai radiante. Algum tempo depois soube-se que um exemplar da Bíblia de Gutenberg tinha sido encontrado em Buenos Aires e, posteriormente, vendida ao Museu Britânico por dez mil libras.

Entre a realidade e a ficção, na rica história das livrarias de Buenos Aires, abundam histórias como estas que ajudam a construir o mito de uma cidade apaixonada por livros. E onde o primeiro livreiro terá sido, como o seu nome parece indicar com reduzida margem de erro, um português chamado Joaquim da Silva e Aguiar que estabeleceu, por volta de 1776, o primeiro comércio de livros da cidade, como traçou Domingo Buonocore na genealogia das bibliotecas de Buenos Aires.

(Pequeninos excertos dum extenso artigo de João Ventura, na revista Atlântica, para quem se interessar por estes assuntos, ou para quem continua a pensar que a Europa é o mundo do saber e o resto apenas o mundo para ver.)

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21 Maio 2006

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O Génio do Absurdo
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Boris Vian (1920-1959) foi um dos mais extraordinários criadores franceses do século XX. Formou-se em Engenharia, mas seria pelas artes que o mundo registaria o seu nome. Apaixonado pelo jazz (tocava, inclusive, trompete), boémio incorrigível, deu à luz títulos absolutamente inesquecíveis, como "O Arranca Corações", "A Espuma dos Dias", "O Outono em Pequim" ou a "Erva Vermelha".
Viu-se envolvido numa enorme polémica com a tradução de alguns livros de Vernon Sullivan: "Morte aos Feios", "Elas não dão por nada", "Os Mortos têm todos a Mesma Pele" ou "Irei Cuspir-vos na Campa". Trata-se de uma série de romances "negros" ao bom estilo série B, com muito sexo, violência e até algumas estocadas à política externa francesa. Falta acrescentar que Sullivan não era outro senão o próprio Vian.
Antimilitarista convicto, ficou célebre a sua balada "O Desertor". Integrou o Colégio dos Patafísicos, "a ciência das soluções imaginárias", corrente fundada por Alfred Jarry, onde se encontram nomes como Eugène Ionesco ou Jacques Prévert.
Desde muito novo que sofria de problemas cardíacos. Viveu toda a sua existência com velocidade e muito humor e nem na morte abandonou o registo satírico que o levou a criar tantos - e tão difíceis de traduzir - vocábulos.
Morreu aos 39 anos, durante uma projecção privada da adaptação para cinema de "Irei Cuspir-vos na Campa".
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in Os Meus Livros
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Citações:

(...) as medidas que seria conveniente encarar como sendo para tomar um dia, a poligamia obrigatória, por exemplo, e não me oponho à poliandria, descansem...não temos assim tantas oportunidades de descansar.

Concebo sem dificuldade anúncios deste género: «Fazer amor com uma mulher loura é bom...mas será que já experimentou as morenas?» Quem ousará? Ou esta assim: « Dormir com uma mulher bonita, sim, claro, mas será que sabe o que é dormir com uma mulher feia?» No dia em que virmos anúncios deste género no France-Soir ou no Paris-Presse poderemos dizer que a literatura erótica ganhou o seu lugar ao sol.

Detesto acima de tudo as mulheres que julgam que podem ser feias porque são inteligentes. Felizmente, nunca encontrei uma mulher inteligente.

Porque é que as cantoras bonitas são sempre casadas com o sax tenor da orquestra? E será por isso que toda a gente toca sax tenor?

Não esquecemos nada daquilo que queremos esquecer; é o resto que esquecemos.

Julgo ter custado menos à França do que Napoleão; e no entanto, ele é muito mais conhecido do que eu.

Porque é que temos vontade de mijar de cada vez que encontramos uma posição confortável para dormir?

(...) está-se bem no hospital...no hospital tens camas, tens enfermeiras para te servir...mas lá está, para te meterem no hospital é preciso que estejas doente...E depois não aproveitas nada.

Sobre a Morte - Uma saída é uma entrada que se toma no sentido inverso.
Sem militares nem padres porque o meu sonho foi sempre morrer sem intermediários.

Pra fazer um soldado é preciso desfazer um civil.

No dia em que ninguém regressar de uma guerra, é porque ela terá enfim sido bem feita. Nesse dia, dar-nos-emos conta de que todas as tentativas abortadas até então foram obras de farsantes. Nesse dia, dar-nos-emos conta de que basta UMA guerra para apagar os preconceitos ainda ligados a este modo de destruição. Nesse dia, será, para sempre, inútil recomeçar.

- E dá bons resultados, a democracia?
- Não é possível saber. É segredo.

Dizer idiotices, por estes dias em que toda a gente reflecte profundamente, é a única forma de provar que temos um pensamento livre e independente.

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20 Maio 2006

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Blink 182 - I miss you
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Solidão. Medo. Fuga.
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20 Maio 2006

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Wounds 1
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como se
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tocar as margens desta página
deste corpo
como se existisse já o corpo
sem caminho
acender palavras trémulas
como se houvesse uma lâmpada
atravessar-te o corpo unânime
como se o visse já sob o relâmpago

dizer-te um a um
os dedos das carícias
num enxame de palavras quase vermelhas
quase
como se a língua falasse sob o trovão tremendo
dizer-te
esta laranja incandescente
este músculo que desce
em água doce
como se te visse já e te tocasse a pele
sob esta chuva escura
atravessar a espessura deste papel com letras
como se as letras fossem
feridas no teu corpo
desenhar esse gesto
despenteado
como se o corpo
rolasse sob
as palavras mesmas
como se o caminho
se abrisse
tão perto da tua boca

é como se te respirasse
se eu falasse
como se respirasse
no caminho
como se estas palavras fossem já
esse caminho
para o teu corpo
como se houvesse um caminho
se eu falasse
se eu falar

vejo-te imagem só
mas não o corpo
ou nem a língua vejo
mal respiro
e no entanto uma palavra ascende
o caminho é este
através das palavras do teu corpo
são estas as pedras
vermelhas
negras
sob a chuva
estas mãos que buscam
o caminho na espessura
são o caminho já
tão perto já
da tua boca
da tua língua acesa

se eu falar
é este o caminho dos teus cabelos
da tua boca
cada palavra treme
com o tremor dos teus pulsos
com a loucura feliz
desta mão que ascende
sobre o teu corpo
e desce ao fundo
à água do teu sexo
e beijo o teu nome
entre os teus dentes
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antónio ramos rosa

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19 Maio 2006

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Cada cabeça sua sentença
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Segundo O Público de sei lá que data (este recorte andava ao tempo na gaveta), um clube de futebol da Austrália decidiu obrigar contratualmente os seus jogadores a irem à missa pelo menos uma vez por mês. Pretende-se, desta forma, combater os recentes escândalos sexuais.
Com objectivos similares, os membros das equipas juvenis deverão ser desaconselhados de irem a essas mesmas missas...

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19 Maio 2006

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Duo
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estava de robe
barba por fazer
guitarra na mão incerta
absinto na boca
a fada verde na alma
cabia um dia
inteiro
naquele espaço
perdido

dás-me a provar absinto?
se te der chamas-me colaboracionistazinho?

vamos ouvir as folhas secas, no outono, debaixo de nós?
perdes-te no tempo...

se me perder sabes ir onde eu estava?
essa estação não fechou?

não sei. ficamos à porta.
da estação?
não. do tempo.

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17 Maio 2006

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Ballet Gulbenkian
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Um país que acaba com isto, está à espera de quê para acabar com o resto?
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15 Maio 2006

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Mãe
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Há dez anos que não te vejo.

Sabes? O Duarte ofereceu-me um livrinho de poemas sobre quadros de Cézanne.
O Duarte, que só viste dentro de mim.
Que diz que tu és bonita.
Assim, como só sabem dizer as vozes de dentro.
Sem temporalidade
Que tem o teu sorriso.

Talvez por saber, como tu sabes
Que te continuamos aqui.

O Diogo telefonou-me. Queria oferecer-me um telemóvel.
Já tenho dois, mas ele acha que eu devo ter muito de tudo.

É a parte dele de ti.
Que também te continua.

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07 Maio 2006

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O paradigma do contraditório
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quem é que não gosta
de ter saudades de quem gosta?
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Fernando Pessoa
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07 Maio 2006

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À minha maneira creio ser verdade
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Quando nasci o meu nome já tinha morrido.
Hoje é o meu anjo da guarda.
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06 Maio 2006

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Isto só comigo...
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Ando cada vez mais aflita para conseguir distinguir amor de paixão.
E, ainda por cima, eles não ajudam nada...
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06 Maio 2006

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Patéticos
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I
gosto de ver os sinais que tens na cara.
não digas disparates...
amavas-me sem disparates?
não.
então tenho de continuar a dizer.
amavas-me se eu não tivesse estes sinais na cara?
não.

II
tens lume?
não, mas tenho uma alma, queres?
a tua alma dá para acender este cigarro?
dá...

III
abre os olhos, ou cais.
mas eu quero cair...
se caires, dói...
se eu cair adormeço deitada nas folhas...
e se eu te soprar até ao chão?

IV
porque não olhas para o céu?
tenho medo de não acreditar mais em anjos.

V
fecha-me os olhos.
assim?
mais...
assim?
ainda não...
mas é impossível fechar mais...o que vês?
vejo a memória do mundo.

VI
se eu voasse eras céu?
ou estrela.
se eu nascesse eras ventre?
ou terra.
se eu fosse palavra eras boca?
ou poema.

VII
está tanto silêncio no mundo.
ouves a música?
não. ouço a tua pele.
há tão pouca luz. vês o mar?
não. vejo a tua boca.

VIII
se te der este papel fazes um desenho?
se te der o mundo, foges comigo?

IX
onde está a lua?
a prender-te os cabelos...
bebe-a devagar...e beija-me de seguida.

X
empresta-me a tesoura. quero recortar o teu coração.
para quê?
para o costurar no meu.

XI
quem está aí?
a tua sombra...
queres entrar?
não. quero levar-te comigo.

XII
porque desceste da árvore naquela noite?
porque queria morrer na terra contigo.

XIII
se te pedir um beijo, dás?
se eu não tivesse nascido, encontravas-me?

XIV
podes ensinar-me a música?
qual?
aquela que faz dançar duas facas num coração.

XV
estás perto de mim?
estou...
prova-me.
se fechares a mão eu caio dentro de ti.
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05 Maio 2006

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Quase..........................Durante...
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05 Maio 2006

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Requiem
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Armadilha

Submissão

Entrega

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05 Maio 2006

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Anonymous said...
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05 Maio 2006

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Apathy is a cool emotion
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"O músico Lloyd Cole agendou quatro espectáculos para Portugal no mês de Maio. Santa Maria da Feira, Tomar, Alcobaça e Moita recebem o ex-The Commotions.
Um dos maiores singer/songwriters britânicos vai estar novamente entre nós. Lloyd Cole, vem a Portugal e "foge" das grandes metrópoles, para os ultimos "retoques" do seu próximo álbum de originais. Os concertos, esses, vão estar recheados de clássicos de Cole. Da época dos The Commotions e da sua carreira a solo. Nestes concertos intimistas (que não irão passar pelas habituais salas de concerto) Lloyd Cole estará acompanhado das suas guitarras e da sua voz que nos (en)canta letras de amor e paixão como já não se fazem. Este senhor de 45 anos pertence a uma espécie em vias de extinção: os singer/songwrites que nos falam ao coração. De uma maneira simples, romântica e sempre com um bom gosto intocável."

Pois é, Lloyd Cole mesmo à minha porta.
O último concerto será precisamente no Fórum Cultural de um dos pólos da rede de bibliotecas para a qual trabalho. E não faço a minima ideia se irei vê-lo ou não...
(O meu médico vai tentar uma terapia de choque. Duvido que resulte.)

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02 Maio 2006

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(Isto não estava aqui)
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1. Entra aqui comigo. Tu não sabes mas escrevemos isto a dois.
Que só me percebo por ti. Que não consinto mais ninguém.
A minha vida, a minha alma, o meu corpo não consentem.
Estás dentro de mim como um orgão essencial ao meu respirar.
Ofegante. Trémulo. Inesperadamente radiante.

O meu corpo, onde estás.
Falo com ele. Acaricio-o. Sei-te assim. Sabemos um do outro.
Estás comigo todos os dias nos sítios onde vou todos os dias.

Às vezes sinto frio. Assusto-me.
É então que te vejo a observar-me, irónico, rebelde e triste.
De longe.
Toco-me e trago-te.

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2. À noite acendo um cigarro. Falo-te e tu olhas outra coisa noutro lado qualquer. O teu inferno.
Toco na tua almofada. E , como sabes do meu medo, sorris.

Descubro-te, então, comovido, no entrelaçar dos teus dedos nos meus.
E vou contigo quando fechas os olhos.
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3. Odeio a manhã. De manhã estás tão diferente.
Endureço. Agarro-me. Deixas de controlar os meus actos.
É o sol, amor.
Não fomos feitos para o sol.
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(este e os três posts anteriores foram originalmente escritos em Fevereiro e Abril de 2005)
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01 Maio 2006

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«Por este andar vou eu primeiro» - dizes
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Não suporto a idéia de que vais morrer sem eu morrer contigo. Ou o contrário. Sempre quis morrer contigo. Muito mais do que viver. O sermos leves, livres, eternos.

Toda a vida procurei alguém com quem valesse a pena morrer.

Ouço a minha mãe a sussurar ao meu pai "As coisas que esta rapariga diz...". E ele a não responder. E eu a pensar que ele percebia. Sem nunca dizer nada, percebia.

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01 Maio 2006

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Como se fossem um
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- Não me olhes assim...
- ...
- ...Se eu sei dos teus tormentos devias rir até me convenceres que eram invenções febris das minhas madrugadas, da minha mente delirante.
- Dà-me um cigarro. Ou deixa-te de cenas metafórico-parabólicas.
- Eu calo-me. Dorme.
- Tu pensas que os meus olhos são tristes numa sádica demonstração de menino desprotegido? Tu pensas que eu uso as palavras para fingir que sou superior à merda que me circunda?
- Não foi bem isso que eu disse...
- Foi! Como se não soubesses das frustações secretas que temos, como se não soubesses que não conseguimos o que queriamos, como se não soubesses da ambivalência de situações que...
- Que...
- Tu sabes...O impossível, o incompleto, o não acabado. A raiva aprisionada nos dentes. O querer ser feliz sem ter um pingo de fé em que isso aconteça. Se dizes que sabes de nós porque raio me obrigas a fumar, falar, recordar, lutar, andar às voltas no labirinto?
- Seja. Apaga o cigarro. Fecha a luz. Dá-me a mão e tenta esquecer. É o que eu faço.
- Fazes, fazes, fazes...Não me faças rir...
- Nós não sabemos rir, esqueceste-te? Nunca percebi porque brilhamos tanto entre os outros. Será desta distância de sabermos que a verdade reside só em termos nascido a sentir demais a vida para a querer, para gostar dela? As verdades secretas escapam-se sempre para o outro lado do muro e brilham por terem inventado a liberdade...
- Se tomas isso como verdade...eu acho que estás enganada. Tu sabes que eu não quero ser duro, quero prender a tua mão na minha e dormir, sómente isso. Posso?
- Ontem, enquanto olhava um semáforo, lembrei-me de nós; do quanto eu gostaria de sermos, pelo menos, o instante da passagem do amarelo..
- Não me parece desagradável. Mas também gostei de termos sido o verde. E, pensando bem, também não foi mau termos sido o vermelho...
- Não era para rir...
- Não me interessa para que era, inspirou-me. Transforma as vozes nessa cabeça em sangue a aquecer nas veias e vem...e tráz contigo a cola do suor e do calor que nos isola do pior e do amor.
- Não ias dormir? E eu não quero isolar-me de...
- Queres. Cala-te...
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01 Maio 2006

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1 ano, 1 mês e 7 horas depois...(precisamente)
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Caíu-me aos pés uma saudade. Não sei que lhe fazer.
Decido deitá-la comigo na cama.

Apetece-me amar-te devagar...Em que não se ouça senão o silêncio que fazem todas as coisas a observar-nos.

E assim, sem te tocar, vives-me nas mãos.
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01 Maio 2006

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A noite
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É feita de quantos absurdos?

Todos os dias nasce o sol, para que diurnos acordem e nocturnos descansem. Todas as noites há um noctívago fixando o olhar no céu, transformado em estrela: morta, ainda assim acesa, por anos luz.

Quando o céu destapa a boca da noite, escorre o escuro: é hora de dormir; para alguns, porque para outros, é só o começo de alguma coisa sem nome, negra, cheia de relâmpagos. Flashes de um dia turvo, incógnito; entre sonhos nómadas, feios e bonitos, acertos, erros, quase meios, entradas e saídas.

Para quem a noite é só uma criança a mais no berçário sem aurora, a vida é composta de bocejos, grandes clarões, fascínios imperdoáveis, glamour anónimo, inspiração.

Mas as horas contêm grandes pausas, largas, fecundas. Nesses instantes um pouco de tudo acontece: o veneno delicia, a bondade mata, a loucura cura, a água dá sede, eternas paixões arrefecem, óperas são compostas, Diabo e Deus beijam-se, a lua encontra o sol. E outros possíveis impossíveis.

Na hora sem hora em que o tempo não corre no relógio que desperta a dor, a noite pára.
Resta a certeza de que o absurdo chegou.

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10 Dezembro 2005

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One day without another one
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Queria estar bem próxima do mar para perceber as brumas, metaforizadas no silêncio enevoado da minha casa, em dias nos quais nada nem ninguém perturbam a calma contundente de não se fazer nada, enquanto o mundo lá fora acontece singular.

Singular é a maneira como percebo que desaconteço, ferida na tentativa vã de sobreviver às certezas transitórias de uma vida-armadilha, entre lânguidos sussurros, e a sensação aborrecida de querer ser rocha, oceano; desde os píncaros dum zénite azulado até o fim dum horizonte nadir.

Entre um querer e outro eu escondo-me, eu pairo, eu recrio-me. Improviso divertimentos, pequenas artes, folguedos. Estouro da vontade que eu sempre quis. A pressa compelida de calma, cama, ócio dos apaixonados.

Sede: hemorrogia do avesso. Tantas maneiras de se criarem estes contrários iguais. No fundo não me importa se é sede o que sinto, derramo sempre.

Eu só queria ter até o fim dos meus dias esta inspirada fé em nadas, fazer cócegas na apatia e ser feliz.

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10 Dezembro 2005

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Deixa lá, querida
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Um post que me tocou, do blog " Vamos lixar tudo". Um post do qual alguém que conheço diria "Merdas que me dizem algo..."
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“Estou a aprender a estar comigo só”, dizia-me ela. E eu que a queria e ela não queria crer em tal desejo. Senti-me subitamente expulso do mundo dela, ao mesmo tempo que ela me continuava a consentir que mergulhasse os meus olhos nos olhos dela.
“Por vezes é preciso sonhar e amar em voz alta”, resmunguei eu. Não disse ai, nem ui.
Continuámos a jantar e no fim acendemos os inevitáveis cigarros pós-refeição.
Insisti. Acariciei-lhe a face. E ela deixou. Os dedos descaíram um pouco até ao pescoço. E ela deixou-os chegarem até aos seios.
Talvez com a excitação daqueles mamilos duros, ela agarrou-me, beijou-me e acariciou-me os cabelos.
Já deitados no sofá, em frente à televisão que passava um filme que não víamos, as carícias subiram de tom. Amámo-nos no chão como dois adolescentes, inocentes e inconscientes.
Deixa que continue assim, deixa lá, querida.
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31 Julho 2005

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Olhares no Fundo da Pele
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-Nunca mais caminhámos pelas ruas, nunca mais nos sentámos a olhar o azul do céu. Cansaço, indiferença?
-Apenas desejo que não te sintas presa.
-Eu quero sentir-me presa, conscientemente presa. Cair contigo, Leo.
-Umas vezes queres, outras vezes procuras a luz.
-Pensas então que eu...que perdemos a luz?
-Caminhávamos pelas ruas e o tempo não contava. Ainda te vejo, ainda te sinto transparente. Mas chegámos demasiado cedo à vida do outro.
-Tu é que falas em acabar, que tudo acaba, amor efémero e não sei que mais...
-Precisamos de novas ressonâncias, de ouvir cada um a sua música.
-Eu não preciso, Bach está bem.
-Queres dizer que ainda não precisas. Um dia destes farás amor comigo a pensar noutro.
-Um dia em que estejas a pensar noutra?
-Ou noutra coisa. No vazio.
-Não estás sempre? Essas figuras que tens na cabeça, esses palcos que tu pisas...
-O começo da tua libertação. A morte do casamento, Ema.
-Que já morreu para ti.
-Começou a morrer.
-Quando?
-No primeiro dia. O teu é imutável?
-Está de boa saúde, cheio de contradições mas...
-Vês? -Cheio de contradições, infidelidades, mas o desejo...
-O desejo? Sabemos onde tocar, sabemos quando o outro deseja, quando o outro se abre. A isso eu chamo hábito, conforto, um conforto -que pouco a pouco se tornou maduro. Como tu me desprezarias se eu te fosse fiel! Leal, sou leal.
-Dás-me vontade de rir.
-Ri. Gosto de te ver rir assim, com o copo na mão, a olhar o mundo com o copo na mão.
-O mundo, o mundo...Só devia ser olhado, só merece ser olhado com o olho do cu. Prefiro olhar para ti.
-Para mim? Estou feia.
-Chegou o momento de te conheceres, de te possuíres.
-Tu é que te perdeste. Às vezes olho-te e não te reconheço.
-Eu sei. Eu próprio me perco nos meus desertos. Jogo a mão, tenho a boca seca e é uma miragem. Ainda não encontrei o meu kibbutz.
-Tocas o que a mão não alcança.
-Alcanço-te ainda.
-Não gosto do ainda.
-Queres que me apodere do futuro, do que não existe?
-Eu não existo?
-Existes mas não tens olhos, não vês que estou a cair, a deslizar. Não vês o medo que eu tenho de ser tão incerto e deslizante e falso como tudo o resto. O amor é sempre uma forma de destruição.
-Quando começámos dizias que era uma forma de construção...
-Sabes qual é a diferença?
-Sei que me queres perder.
-Não se ama menos quem está ausente, quem se perdeu.
-Palavras. Tão vazias como o azul do céu, um buraco. Mas eu estou aqui, ainda estou aqui.
-Ainda, estamos ainda ligados um ao outro mas já não temos nada a construir.
-Eu tenho. Ajudas-me a despir o vestido?
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in Pátria Sensível : Romance
Casimiro de Brito

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13 Julho 2005

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Rascunho de uma vida
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A vida é como um pequeno saco de pistácios. Plástico que esconde segredos contados um por um com a certeza de que serão tantos como os que se pensam. Cada um salgado. Cada um com uma casca que engana a face que se esconde. Há sempre um que se apresenta nu nas mãos de quem o cobiça. Outro fecha-se de tal maneira que é preciso estragar as unhas para trincar o prazer. Os restantes são meros pistácios iguais a todos os que aguardam noutros tantos sacos. Mas todos com um destino. Há sempre um destino. Para todos. No final há que limpar o suor. Beber um pouco de água ou cerveja. Ao gosto de cada um. E no final suspirar.

A vida é estranha. Parece que há um prazer em saber que nos pertence. Que por vezes vem e vai. Há momentos em que se apregoa por dias melhores. Que os que se vivem acabem num suspiro. Como se o último pistácio fosse o que guarda um duelo entre a vontade e a paciência. Há alturas em que os dias são passados a praguejar. Mas há os que olham o céu e simplesmente acreditam. Há os que se amam. Os que se odeiam. Os que dão a vida ou tiram vida. E há os que nos morrem. Ou os que nos escolhem para morrer. E tudo fica para trás. Escondido e sem sentido. Todos choram, como se a cidade parasse. Como se o mundo se afundasse. Como se esse fosse o último de todos. Mas os aviões continuam a brincar no céu. Os carros a rosnar na estrada. Miúdos a gozar com as rugas que um dia vão ter. Até que um dia são eles.


E o tempo continua. Com vozes aqui e ali. Ninguém se cala. Chora-se. Até que seque a última lágrima. E, da memória do último de todos, fica apenas uma pedra com o nome que é e sem a vida que teve. E sonha-se em ser o outro. Os outros. Para viver o que ainda lhes está destinado. Vive-se a sonhar. Morre-se como se de um sonho ensonado se tratasse a vida.
«Às vezes julgo ver nos meus olhos a promessa de outros seres que eu podia ter sido, se a vida tivesse sido outra. Mas dessa fabulosa descoberta só me vem o terror e a mágoa de me sentir sem forma, vaga e incerta como a água.» escreve Sophia de Mello Breyner Andresen, na década de 40, num papel que passa a poesia, uma linha que esconde o desejo. Maldito por vezes. Porque a vida nasce assim, sem sentido. E quando o ganha, deseja-se que perca. E que se regresse à infância. Que o amor seja tão grande como os sonhos dos pequenos. De mundos que se criam do tamanho do Universo. Tão grandes. E é a vida que a par e passo abre caminhos traiçoeiros, amenos, ventosos e tempestuosos, calmos e brandos. Parece que cada um é feito à medida de todos. E de ninguém. Como o tempo de que todos falam quando nada há a dizer.

Cumprimenta-se a vida. Despedem-se os amantes. Como escreveu Li Shang-yin, algures num recanto onde a chuva alimenta a Primavera, «São tão difíceis os encontros, mas mais difícil é a separação». No século IX, o poeta que viveu durante a dinastia Tang, escreveu que «Um punhado de amor é um punhado de cinzas». Quando acaba, realmente, pode ser a coisa mais triste do mundo, canta-se em brasileiro. Mas sem sotaque, porque esta é bem capaz de ser uma verdade universal.

E ser-se quem se é será sempre assim. Para nascer, viver, amar e morrer. Chora-se. A vida é uma loucura consciente. Uma viagem sem regresso. Quando o fim nos escolhe não há retorno. E somos as cinzas. Como o amor que tivemos por ela. Mesmo que por um dia. Ou em toda a vida.
Nascemos sem a consciência do que nos espera. Morremos da mesma maneira. Pelo meio, na verdade, nada nos espera. O fogo que nos acenderam cedo tem um fim. Mas nunca um sentido. Esse procura-se todos os dias. E espera-se. Sempre.

«Acendi uma fogueira nas minhas noites de lua para chamar os hóspedes como fazem as prostitutas à beira de certas estradas, mas ninguém parou para ver. E a minha fogueira apagou-se» escreve Alda Merini, poetisa italiana, depois de anos passados em paredes de loucos, sobre a espera. Loucura. Amor.«Quando nos amávamos davam-nos choques eléctricos porque, diziam, um louco não pode amar ninguém».
Reside a esperança de uma ressurreição. Que os males se apaguem. Apesar do amor não se circunscrever à normalidade. É vida quando corre nas veias de quem ama. Seja são ou pérfido. «A doença também tem um sentido, uma desmesura, um passo, a doença também é matriz». Vive-se entre a dor e o sorriso. E a incerteza constante. Como se a felicidade fosse ouro no final de um arco-íris. Como se os males se escondessem por debaixo de árvores de solidão, árvores de luto. E chora-se. Muito. Quando tudo chega ao fim.

A vida, na verdade, é como um pequeno saco de pistácios. Há uns tantos que nos dão prazer. Outros alguma luta. Aqueles em que insistir significa a nossa degradação. Mesmo que sejam unhas, quando somos nós, é a alma que se estraga. Há os podres. E os que sobram. Seja um saco ou não, nunca irá fazer sentido. Mesmo tirando a casca, do princípio ao fim, é apenas uma viagem sem memória.

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01 Maio 2005

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Equívoco - Ex-citação 2
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Toquei à campainha (...) e abriu-me a porta
alguém que não tinha nascido para abrir portas...
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in Diário de Andrés Fava - Júlio Cortázar
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21 Março 2005

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Recado post umo
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Conheciam-se por se verem quase todos os dias como se vêm quase todos os dias as pessoas duma vila pequena como era aquela. Um dia ele atreveu-se, num bailarico qualquer. Docemente, sem aquele gesto grosseiro de cabeça, feito das laterais, para as filas de cadeiras onde as raparigas se faziam muitas vezes acompanhar pelas mães "Queres dançar?". Não, ele foi pedindo licença às pessoas até estar à frente dela "Posso falar contigo?". Ela não disse nada. Levantou-se e encaminhou-se para a pista de dança. De repente, ela que nunca tinha querido dançar em bailaricos, quis falar com ele a dançar.
"Sou o Quim Zé, como deves saber, e quero convidar-te para saíres comigo no próximo domingo à tarde". Sair domingo à tarde, naquele tempo, era passsear pela avenida da vila, depois do almoço, horas contadas a partir de casa, voltar muito antes de cair a noite e sem angústias porque as conversas eram entendidas em cada segundo de silêncio, quebrado apenas pelo coro de folhas em fundo, e porque tudo podia ser repetido em qualquer altura como se se vivesse na mesma casa.
O Quim Zé tinha vinte anos, ela dezoito.
O Quim Zé disse a uma vizinha "É com ela que quero casar". Ela dizia às amigas que ele era lindo, com aqueles cabelos loiros e olhos tão verdes e tão líquidos...mas que não era dele que ela gostava.
Semanas depois ele deu entrada num hospital onde, curiosamente, tinham descoberto ter estado os dois quando eram crianças, sem saberem um do outro nessa altura. Nada de grave, era coisa para poucos dias, mas perguntou-lhe se lhe podia escrever. Que sim, porque não?, respondeu ela tão naturalmente como conseguiu, posto que continuava deslumbrada por aqueles olhos verdes e por tanta atenção. Não era amor, mas havia qualquer coisa que lhe tolhia a espontaniedade e às vezes a alegria, quando passeava com ele avenida abaixo, avenida acima. Sem sequer nunca terem dado a mão nem terem falado em namoro. Naquela altura as vizinhas, os amigos ou os familiares serviam como fiéis depositários das esperanças de cada um.
Ele escreveu-lhe. Ela não respondeu.
Quando saíu do hospital ele começou um namoro com uma rapariga duma terra vizinha, que nunca se soube quem era. O que se soube foi que casaram logo de seguida e que, algum tempo depois, ele morreu num desastre de automóvel, embatendo violentamente num contentor de lixo e num poste eléctrico, numa curva estupidamente fácil.
Ela ficou triste. Teve pena de saber aqueles olhos verdes fechados para sempre. Mas foi só. Estava imbecilmente obcecada por alguém de quem nem reteve o nome, nem com quem alguma vez sequer falou e que nunca lhe deu atenção alguma. Apenas por o ver passar na rua.
Ficou triste e nunca conseguiu saber porque lhe tinha tocado o líquido daqueles olhos verdes. Na verdade nunca sequer se esforçou muito. O outro continuava a passar frente à janela dela. E o tempo a passar com ele e tudo o resto...
Mas ficou toda a vida com um aperto no peito de cada vez que se lembrava do que, mais tarde, a vizinha lhe disse, com ar sério, de lamento e algo reprovador "Se tu tivesses querido casar com ele...". Poderia o Quim Zé ainda estar vivo, queria ela dizer.
A vizinha não sabia que o destino dela seria chorar os vivos. E muito.
E apenas sorrir, agradecida e ternamente, para todos os mortos da sua vida.

Quim Zé, ela pediu-me para te dar um recado."Diz-lhe até um dia. E que a avenida continua igual, clara e limpa, como se fosse um cemitério de coisas bonitas."
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19 Março 2005

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O que ando a ler - Ex-citação 1
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POEMA DE AMOR

1.
Tu és a minha aranha favorita

2.
Não sabem quanto eu gosto
de me sentir em palpos de aranha.


outro

POEMA DE AMOR

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de saturno
e quase ia morrendo com o receio de que não
te coubesse no dedo

e ainda

CARTA DE AMOR

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

e

o que considero o mais belo poema de amor feito a Portugal


PORTUGAL

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater
os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença
que lhe atacava os orgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira,
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer
que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos
a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso
sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito
e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce
que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros
para eu poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete,
Salazar estava no poder, nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra,
tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos
Portugal
depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas
a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propôr-te um projecto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta
à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca
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In O Poeta Nu - Jorge de Sousa Braga
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15 Março 2005

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Algemas
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"A vida são portas condenadas" - escreveu alguém (e que, aqui, arrumo, adapto e acrescento)

São portas que passamos.
E pensamos que ao abri-las descobrimos o mundo e arrumamos o caos interno.
Depois percebemos que elas se fecham uma a uma. Nas nossas costas. Na nossa cara.
Com uma força esmagadora que nos deixa de braços caídos a perguntar

Porquê?

São portas condenadas.
Primeiro fecha-se a da infância. Dos risos ao sol, das tardes a brincar, dos livros coloridos, dos colos, do beijo antes de adormecer.
Depois crescemos e alguém nos diz: tu és capaz, tu és capaz...

E ficamos por nossa conta.

A partir daqui tudo se estreita.
Percebemos que viver é apenas um precário equilíbrio. Uma travessia solitária. Que nos há-de levar a um lado qualquer que é sempre do outro lado.
Onde está tudo aquilo que nos convencem que queremos.
Que escolhemos como objectivo para alcançar uma coisa qualquer a que gostamos de chamar

Felicidade.
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Para além disto gostava de dizer que

Às vezes e através de ti, convenço-me que afinal a vida não são só portas condenadas.
Que através de ti alcanço momentos tão
Gratificantes
Deslumbrantes
Partilhados
Absolutos
que é como se todas as portas do mundo se abrissem.

Mas não posso.

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04 Março 2005

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